Chega ao Brasil nessa semana a etapa sulamericana da turnê de divulgação de FIrepower, disco mais recente do Judas Priest, uma das mais importantes bandas de heavy metal de todos os tempos. Celebrado como seu melhor trabalho desde os áureos tempos, o grupo vem com uma baixa significativa: seu guitarrista principal, Glenn Tipton, revelou estar sofrendo de mal de Parkinson e teve de abandonar os palcos. Em seu lugar, o grupo anunciou Andy Sneap, produtor de renome, co-responsável por coordenar as gravações do último álbum ao lado do lendário Tom Allom.

Allom, que retornou a trabalhar com o Judas Priest em Firepower, foi responsável pela produção dos discos de maiores sucesso do grupo nos anos 80, quando as bases de seu som foram consolidadas em British Steel e Screaming for Vengeance. O caminho traçado pela banda até então se confunde com a definição do heavy metal enquanto um estilo à parte do hard rock setentista.

Quando a parceria entre Allom e Judas Priest se desfez, o grupo pareceu achar seu espaço na agressiva cena do heavy metal que perduraria pelos anos 90 com o clássico Painkiller, mas, com a saída do vocalista Rob Halford, a banda entrou em crise assim como todo o heavy metal tradicional. Somente nos anos 2000, com o retorno do icônico cantor, as coisas se acertaram, não sem alguns contratempos, como o desmanche da lendária dupla de guitarristas quando K.K. Downing anunciou sua saída ou um malfadado disco duplo conceitual.

O Judas Priest, apesar disso, não só sobreviveu como ganhou vitalidade com o novo guitarrista, Richie Faulkner. Se a qualidade de Firepower é a prova cabal da ótima fase da banda, vê-la no palco ainda é a melhor aula possível sobre a definição de heavy metal. Entender a sua discografia é se aprofundar no assunto para aproveitar melhor cada momento.

Os anos 70: desconstrução musical e definição do heavy metal

O primeiro disco do Judas Priest, Rocka Rolla (1974), tem pouco ou quase nada do que se tornaria tradicional na banda já a partir do lançamento seguinte. A começar pelo fato de que Glenn Tipton, seu principal compositor, só ter passado a fazer parte do grupo durante as gravações desse álbum e assinar apenas duas faixas, tendo outras de suas ideias rejeitadas pelo produtor Rodger Bain, veterano dos primeiros discos do Black Sabbath e do Budgie.

Em Rocka Rolla, faz-se notar uma amálgama das mais diferentes influências, como psicodelismo, o rock progressivo, blues e até folk, ao hard rock que o Judas Priest então desejava tocar. Dessa forma, composições extensas divididas em várias partes, como a suíte Winter/Deep Freeze/Winter Retreat, ou Run of the Mill, ambas batendo nos oito minutos, apresentam variações rítmicas, belas melodias e até interlúdios de guitarra bem viajantes, mas quase nada seria repetido no futuro.

Alguns elementos que se tornariam clássicos no Judas Priest no futuro aparecem sem tanto destaque, como os gritos agudos de Rob Halford no final da mais pesada e cadenciada Never Satisfied e na parte final da melancólica Run of the Mill, bem como alguns tímidos duetos de guitarra na faixa título. Os riffs ainda soam mais derivados de um blues pesado – que depois seria convencionado chamar de doom metal – do que o grupo se faria notar no próximo disco.

Apenas dois anos depois, com uma nova equipe de produção liderada por Jeffrey Calvert e Geraint Hughes, de trabalhos tão diversos quanto Cat Stevens e Yes, além de um novo baterista – Alan Moore voltou ao grupo do qual fizera parte nos primórdios substituindo a John Hinch -, Sad Wings of Destiny (1976) trouxe o Judas Priest revigorado e distinto, já exibindo todos os seus clássicos elementos que seriam trabalhados no futuro. As influências de blues foram praticamente descartadas e os elementos de hard rock adquiriram mais peso, como nas rápidas Tyrant e Genocide, sem deixar de ter composições mais longas e intrincadas, como na suíte da melancólica, meio folk e bem progressiva Dreamer Deceiver/Deceiver.

As duas primeiras faixas, por um erro de prensagem dos lados do vinil, Victim of Changes e The Ripper, tornaram-se clássicos absolutos e definiriam um estilo até então não muito bem caracterizado, o heavy metal. A primeira, uma brilhante junção de duas composições antigas do grupo, Whiskey Woman e Red Light Lady, trabalha um riff pesado se alternando ao vocal atingindo tons bem altos de Rob Halford em uma faixa longa e versátil, com dois solos épicos. A segunda é mais curta e se baseia num riff sinistro e uma interpretação teatral e soturna do vocalista ao contar as façanhas de um assassino em série.

Apesar de ter achado uma cara bem própria em Sad Wings of Destiny, Sin After Sin (1977), lançado no ano seguinte, mostrou o Judas Priest ainda incerto de qual caminho seguir. A troca de gravadora não havia sido das mais tranquilas – os primeiros discos, lançados pela Gull Records, ficaram por muito tempo sendo relançados sem supervisão da banda, que abriu mão de seus direitos para poder assinar com a major CBS/Columbia Records. Mais uma vez, as baquetas mudaram de dono, dessa vez nas mãos do requisitado Simon Phillips, que adicionou uma técnica bem acima de seus antecessores.

Produzido pelo então ex-Deep Purple Roger Glover, o disco tem altos muito altos, a começar pela trinca poderosa de abertura: Sinner é uma faixa rápida e aventureira na linha do disco anterior, mas com uma agressividade inédita até então; a releitura para Diamonds and Rust de Joan Baez já vinha sendo ensaiada em estúdio em sessões de gravação anteriores, mas encontrou uma galopante e emotiva versão definitiva no álbum; Starbreaker é mais uma tentativa de dar peso extra ao hard rock dos anos setenta que já virava marca registrada da banda. Let Us Prey é uma introdução progressivamente traiçoeira para a velocíssima Call for the Priest, enquanto a última faixa, Dissident Aggressor, aumentou a agressividade e a tensão em doses cavalares de forma inédita na carreira da banda.

O resto do disco, no entanto, retomou um pouco da fase bluesy sem tanta inspiração assim, seja em baladas medianas, ou rocks blueseiros que já soavam fora de contexto na carreira do Judas Priest nesse terceiro álbum. E livrando-se desses erros e acentuando os acertos de Sin After Sin, no final do mesmo ano de 1977, a banda estava madura para entrar em estúdio e gravar a obra definitiva dessa sua primeira fase, com um novo baterista, Les Binks, sob supervisão do experiente produtor Dennis Mackay, que já trabalhara com David Bowie e Mahavishnu Orchestra.

Lançado no início de 1978, Stained Class é um disco não só irrepreensível para o Judas Priest, como um dos álbuns seminais na definição do heavy metal – e um dos melhores do estilo em toda a sua história. As influências de hard rock de outrora já adquiriram naturalmente peso e agressividade suficientes para se distinguir de seus pares, como nas faixas White Heat, Red Rock, Savage, Invader e Heroes End ou na releitura de Better By You, Better than Me do Spooky Tooth, incluída de última hora a pedido da gravadora por um single radiofônico.

Exciter abre o disco com mais peso, velocidade e agressividade que Sinner, do disco anterior, mostrando a evolução e segurança da banda de estar no caminho certo. A faixa-título se inicia com um dueto de guitarra numa melodia épica, seguida por um riff galopante e Rob Halford magistralmente se esgoelando até um refrão furioso. Saints in Hell é uma das canções mais densas da carreira da banda, numa outra composição versátil, mas soturna demais para ser chamada de progressiva.

Como cereja do bolo, baseada num riff criado pelo novo baterista, o Judas Priest criou uma de suas mais belas músicas, Beyond the Realms of Death, em que Rob Halford chegou ao auge de sua teatralidade esbanjando seu alcance vocal, dois solos épicos em momentos e sentimentos diversos, numa autêntica balada de heavy metal, longe da influência bluesy das canções mais lentas dos trabalhos anteriores.

Feliz com a sonoridade encontrada, mas ainda atrás de maior reconhecimento nas paradas americanas, os músicos logo voltaram ao estúdio ao lado do produtor James Guthrie, que produzira o cover do Spooky Tooth do álbum anterior, e gravaram um novo trabalho, lançado na Inglaterra ainda em 1978. Killing Machine só saiu nos Estados Unidos no início do ano seguinte, com outro nome, Hell Bent for Leather, e mostrou o Judas Priest mais direto e menos aventureiro nas composições.

Se não perdeu tanto em agressividade, como na faixa escolhida para dar nome ao disco no continente americano, a banda procurava chegar num som mais radiofônico sem deixar de lado a identidade musical então adquirida. Delivering the Goods abre o disco com um riff bem pesado, assim como Running Wild traz a velocidade e precisão do trabalho anterior, mas Rock Forever, Evening Star, Burnin’ Up e Killing Machine já se aproximam mais do hard rock outrora abandonado pelo grupo, alternando faixas mais esquecíveis e bons resultados, como na pesada e soturna releitura para a faixa do Fleetwood Mac The Green Manalishi (with the two-pronged Crown), que se tornou merecidamente um clássico.

Por outro lado, Take On the World é uma tentativa meio frustrada de colar no sucesso da marcial We Will Rock You, enquanto Evil Fantasies fecha o trabalho de forma um pouco mais pesada, mas sem tanto apelo também. A balada Before the Dawn é bonita, mas longe de soar épico como no álbum anterior, deixando um certo gosto amargo ao final do disco, devidamente remediado com o grandioso álbum ao vivo Unleashed in the East. Gravado no Japão e lançado ao final de 1979, após muitos e muitos overdubs em estúdio com o produtor Tom Allom, o disco contém muitas versões definitivas para clássicos gravados em trabalhos anteriores, quando a sonoridade do Judas Priest ainda não estava consolidada.

De volta ao estúdio com Tom Allom no início de 1980, o Judas Priest, novamente de baterista estreante, Dave Holland (ex-Trapeze), aparou as arestas do disco anterior e lançou seu maior clássico, British Steel, quando finalmente chegou à essência do heavy metal. Cortando os excessos setentistas, logo de cara a quadra Breaking the Law, Metal Gods, Rapid Fire e Grinder soam urgentes como punk, diretas como um hard rock, mas com um peso tipicamente metálico em sua totalidade, ditando o caminho a ser seguido pela então emergente nova onda do metal britânico (NWOBHM).

A banda ainda acertou a mão nas faixas mais comerciais, como Living After Midnight e a grudenta United. Se as demais músicas não se tornaram clássicas nos repertórios de turnês futuras, hoje são preciosidades perdidas na discografia, como a ousada The Rage e sua introdução semi-reggae antes de virar um rock de arena com a peculiar agressividade do grupo ou a rápida Steeler, que fecha o álbum de forma empolgante.

A década que se iniciava, no entanto, mostraria o Judas Priest partindo de sua essência encontrada em British Steel para desenvolver novas sonoridades, nem sempre, porém, com resultados tão positivos, mas sempre se mantendo em evidência como um dos grandes nomes do heavy metal.

Os anos 80: Ousadia na busca por novas sonoridades

O Judas Priest, do seu primeiro álbum em 1974 até o seu maior clássico em 1980 passou por um processo de desconstrução, em que aos poucos foi transformando suas influências numa sonoridade única – e definindo o heavy metal como um estilo próprio -, para depois abandoná-las em busca de sua essência. Conseguiu em British Steel e o disco se tornou a pedra fundamental na busca por outros caminhos na década oitentista.

O primeiro trabalho do Judas Priest enquanto um gigante do heavy metal foi Point of Entry (1981), gravado em Ibiza na Espanha no final de 1980, mantendo a equipe do álbum anterior, seja na estável formação ou na produção de Tom Allom, mantidas por toda a década. Claramente buscando repetir o acerto nas faixas mais comerciais de British Steel, atrás do mesmo sucesso, o resultado é um disco confuso. Não exatamente ruim.

Se Heading Out to the Highway traz o peso do Judas Priest para um empolgante hard rock de rádio, não lá muito bem repetido na divertida Hot Rockin’ ou na esquecível All the Way, Desert Plains e Solar Angels, por outro lado. são o clássico e inigualável metal aventureiro da banda em um exercício de contenção. Outras faixas, como Don’t Go, Turning Circles, You Say Yes e Troubleshooter, aproximam-se mais do odioso AOR em voga nos Estados Unidos do que da vibrante NWOBHM, com resultados bem diversos.

Dessa forma, o Judas Priest parecia se encaminhar para se tornar um bando de velhos gordos milionários perto da faminta e jovem cena britânica de metal. Não tardou para o grupo corrigir esse erro, e no ano seguinte lançar Screaming for Vengeance (1982), retomando a sua agressividade peculiar desde a faixa-título, uma das canções mais rápidas e furiosas de sua carreira.

O disco já nasceu clássico desde a abertura, com a épica instrumental The Hellion, introduzindo o riff empolgante de Electric Eye, já seguida da velocíssima Riding on the Wind e da pesada e sinistra Bloodstone, mostrando que o Judas Priest ainda tinha uma coisinha ou outra para ensinar aos jovens britânicos e também a uma molecada irritada americana, que começava a ensaiar um metal ainda mais agressivo e devastador. Graças ao hit You’ve Got Another Thing Comin’, manteve-se em evidência o suficiente nos Estados Unidos para ser trilha sonora de uma turma que tocava o terror nas festas glams.

O disco se perde um pouco nas faixas seguintes, retomando a sonoridade de Point of Entry, claramente deslocadas no álbum assim que a música Screaming for Vengeance começa. Fever, se não é ruim, também não é das baladas mais significativas da carreira do Judas Priest e Devil’s Child é um metal típico e empolgante da banda que encerra o álbum em alta.

E melhoraria no trabalho seguinte, Defenders of the Faith (1984), gravado no final de 1983 com a mesma equipe que acompanhava o Judas Priest desde British Steel e se tornando seu melhor disco desde então. O recado já foi dado na abertura, com Freewheel Burning, ultrapassando a velocidade e agressividade da faixa-título do do álbum anterior.

Em uma sequência de tirar o fôlego, Jawbreaker é ainda mais furiosa que a primeira faixa, enquanto a empolgante Rock Hard Ride Free é o Judas Priest clássico feito na medida para estádios cantar a pleno pulmões. The Sentinel é o épico que o grupo não reproduzia desde os tempos de Stained Class: peso e velocidade numa composição intrincada e aventureira, com um final apoteótico.

Love Bites mostra o Judas Priest ousando em uma música diferente, mais sinistra e envolvente, enquanto Eat me Alive e Some Heads are Gonna Roll retomam a sonoridade empolgante e de fácil digestão. A bela Night Comes Down é uma power ballad típica dos anos 80 por excelência, como o grupo ainda não tinha conseguido fazer; a sequência final, por sua vez, Heavy Duty/Defenders of the Faith encerra o disco num tom marcial, numa declaração boba e divertida de amor ao metal.

Amor ao metal que, no entanto, seria posto à prova em 1986. A NWOBHM estava oficialmente extinta e o metal tradicional se encontrava numa encruzilhada: enquanto o mainstream adotava o hard rock oitentista com seu visual extravagante – “hair metal” -, o underground metálico explodia com a rebeldia e fúria do thrash metal. Ou imagem era tudo, ou anti-imagem.

Ícones do movimento inglês escolhiam seus lados: o Def Leppard gravava morosamente Hysteria, que sairia no ano seguinte, e definiria o perfeito equilíbrio entre heavy metal e música pop; o Saxon caminhava a passos largos para soar como as bandas de hard rock oitentistas americanas, sem nenhum sucesso com o opaco Rock the Nations; o Iron Maiden trilhava sua própria direção cada vez mais progressiva, adotando sintetizadores em Somewhere in Time.

O Judas Priest tentou achar um meio termo, saindo de sua zona de conforto. Turbo originalmente deveria sair como um disco duplo, mas a gravadora logo convenceu o grupo a desistir dessa ideia, mas apenas dessa. Lotado de sintetizadores e efeitos eletrônicos, o álbum pode não soar tão inspirado em Locked In e Rock You All Around the World, mas a banda ainda mostra certo fogo em Reckless com um grande riff, bem como na grandiosa Out in the Cold, cujos experimentos criam um clima tenso numa música mais lenta e poderosa, com um show de interpretação de Rob Halford. Em Turbo Lover, a quase faixa-título, consegue um resultado viciante e hipnótico.

Em muitos momentos, porém, Turbo se aproximou perigosamente do hard oitentista americano em faixas como Parental Guidance, Wild Nights, Hot and Crazy Days e Private Property, para desgosto de parte de seus fãs. Porção pequena, no entanto, pois o disco atingiu platina nos Estados Unidos e Canadá e sua turnê teve a maior produção de palco da carreira do Judas Priest, eternizada no bom disco ao vivo Priest…Live, de 1987.

Mesmo com o estrondoso sucesso comercial, o experimentalismo sintetizado e a farofeira de Turbo puseram em risco a reputação do Judas Priest como uma das principais bandas de heavy metal de todos os tempos. No final de 1987, o grupo juntou alguns restos não utilizados no disco anterior e gravou Ram it Down, álbum lançado no ano seguinte, tentando retomar a sua credibilidade entre os fãs da música mais pesada.

A faixa-título já abre Ram it Down com agressividade e velocidade, mas fica claro que o Judas Priest estava longe de conseguir o peso necessário para soar relevante entre a geração que se batia nas rodas nos shows de thrash metal e ensaiava expandir os extremos do estilo, problema repetido em Hard as Iron e até na mais tradicional Come and Get It. Em muitos momentos, a bateria soa quase eletrônica, mecânica e estéril. Ainda que combine com algumas músicas, como na envolvente Blood Red Skies, faixas como Heavy Metal, Love Zone, I’m a Rocker, Love You To Death e Monsters of Rock soam uma pálida versão da vigorosa banda de outrora.

Como vergonha pouca é bobagem, o Judas Priest tentou se redimir da burrice de ter deixado escapar a chance de participar da trilha sonora megaplatinada do blockbuster Top Gun alguns anos antes, e fez uma versão desastrada e desnecessária para o clássico de Chuck Berry Johnny B. Goode, a ser incluído no filme esquecido e esquecível de mesmo nome. Algo tinha que mudar, estava claro.

Além do disco nada inspirado, a fase para o Judas Priest não era boa. Em vez de ocupar os noticiários por sua música, a banda passou a aparecer nas páginas policiais graças a um processo judicial idiota movido pelos pais de dois garotos que tentaram se matar acusando mensagens escondidas na faixa Better By You, Better than Me de os terem encorajado. Não deu em nada, como se esperava, mas talvez tenha servido para dar um clima especial às gravações do seu futuro disco.

Gravado no início de 1990 e lançado apenas após o fim do julgamento no segundo semestre do mesmo ano, aproveitando-se da malfadada exposição, Painkiller não precisou de mais de 30 segundos para mostrar que o Judas Priest ainda mandava na porra toda. Com novo baterista – o americano Scott Travis – e sob produção do experiente Chris Tsangarides, o grupo soava revigorado, mais furioso e pesado do que nunca.

Há pouca pausa para respiro no disco. Travis abusa do pedal duplo, numa vitalidade inimaginável antes com Dave Holland; as guitarras estão afiadas o tempo todo. Halford grita com fúria na faixa-título e em All Guns Blazing, e mantém uma agressividade controlada nas demais faixas, como na marcial Hell Patrol ou nas velozes Leather Rebel, Night Crawler, Metal Meltdown e Between the Hammer and the Anvil.

Mesmo quando a banda diminui o ritmo, ainda soa extremamente pesada, como em A Touch of Evil, flertando com o industrial, ou na sucessão de solos épicos da grandiosa One Shot at Glory. O Judas Priest parecia pronto para seguir no topo nos anos 90, chamou grupos agressivos em ascensão para sua turnê, como Megadeth, Testament, Annihilator e Pantera. Tudo para desabar logo em seguida numa confusa década para o gigante inglês e para o heavy metal em geral.

Os quase inexistentes anos 90

A ótima repercussão de Painkiller e as turnês ao lado de bandas do porte de Testament e Megadeth nos Estados Unidos e dos então novatos Annihilator e Pantera na Europa renovaram a credibilidade do Judas Priest dentro do heavy metal. Tudo levava a crer que o grupo se preparava para mais uma década comandando uma nova geração de headbangers.

Internamente, no entanto, as tradicionais “divergências musicais” afastavam Rob Halford dos demais colegas de banda. A separação nunca foi muito bem documentada; Halford ainda trabalharia com o grupo na coletânea Metal Works 73-93, acompanhada de um home vídeo do mesmo nome. Mas, musicalmente, começava um período atribulado que só terminaria com a reunião em 2004.

Nesse período, Rob Halford foi muito mais produtivo e relevante do que o Judas Priest. A começar pelo disco War of Words, lançado por sua nova banda em 1993, chamada Fight. Acompanhado do baterista do Judas Priest, Scott Travis, e músicos novatos, o disco prima por uma derivação do peso adquirido em Painkiller em direção a uma sonoridade ainda mais moderna, agressiva e urgente.

Destaques faixas ficam com as violentas quase-thrash Nailed to the Gun e Into the Pit, além das densas e soturnas Life in Black e Immortal Sin. A insinuante Little Crazy teve seu vídeo com alta rotação na MTV; o visual mais agressivo de Rob Halford se afastava da roupagem biker tradicional do Judas Priest e se encaixava com a nova geração de headbangers que se firmava nos anos 90, bem como influências de rap e industrial na faixa título mostravam o vocalista antenado com o nascente nu metal.

O Fight ainda lançou mais dois trabalhos antes de desaparecer. O EP Mutations (1994) mostrou o poder do grupo ao vivo ao lado de algumas faixas remixadas de forma bem eletrônica e industrial para desespero dos fãs mais puristas; A Small Deadly Space, de 1995, teve menor repercussão e menos inspiração, seguindo a tentativa de Halford de se manter relevante e moderno na cena noventista de música pesada, em alguns momentos equilibrando faixas mais melancólicas típicas do grunge às já perenes influências industriais, deixando a influência thrash do disco anterior meio de lado em relação às batidas mais mecânicas.

Do lado do Judas Priest, Glenn Tipton, sem muito alarde, gravou um disco solo chamado Baptizm of Fire, acompanhado de músicos do quilate John Entwistle, Rob Trujillo, Billy Sheehan, Don Airey, Shannon Larkin e Cozy Powell. Cantando em todas as faixas e explorando sonoridades noventistas, principalmente o grunge à la Alice in Chains e o metal cheio de groove do Pantera, misturadas ao seu toque pessoal típico do Judas Priest, o trabalho é confuso, mas, no geral, o resultado é até positivo, com destaques para a frenética faixa-título, a veloz Fuel Me Up, além das soturnas Enter the Storm, Extinct e The Healer.

Os rumores sobre um novo vocalista para o Judas Priest eram incessantes até finalmente o grupo anunciar, no final de 1996, Tim Owens como o substituto de Rob Halford, convocado mais pelo sua atuação em uma banda-tributo do que seus trabalhos autorais. O cantor ainda ganharia o apelido de “Ripper”, teoricamente por sua interpretação do clássico do mesmo nome do Judas Priest.

Jugulator, o primeiro trabalho sem Rob Halford, foi lançado em 1997. A sonoridade não fugia tanto do que o ex-vocalista havia feito com o Fight, aproximando o Judas Priest de bandas mais modernas e agressivas daquela década, abusando de timbres mais graves na guitarra, riffs mais diretos e batidas primais. Exceto pela faixa Cathedral Spires, que ao longo de nove melancólicos minutos mostra o potencial do novo cantor, o álbum deixa as melodias típicas do grupo em segundo plano

No restante do disco, Owens fez o que pôde em Blood Stained, Death Row, Burn in Hell e Bullet Train, faixas mais simplórias e mais ou menos cativantes. Outras, porém, como Dead Meat, Brain Dead e a faixa-título tornam ouvir Jugulator uma das mais tristes experiências no heavy metal. Se nos anos 70 o Judas Priest definia o estilo e ditava seus caminhos, em 1997 ele soava como uma cópia inferior das bandas do mainstream.

No palco, porém, Tim Owens se provou capacitado para substituir Rob Halford e a banda aproveitou a curiosidade da nova formação para lançar Live Meltdown’98, um CD duplo ao vivo que expande um pouco da sonoridade mais agressiva de Jugulator para todo o material sem descaracterizá-lo por inteiro, enquanto o novo vocalista brilhou nas faixas consagradas por seu antecessor.

Por outro lado, a historinha de ter um fã assumindo o papel de vocalista principal de sua banda idolatrada acabou cativando os produtores de Hollywood, e um filme chamado Metal God começou a ser rodado com o roteiro inspirado na ascensão de Tim Owens. Divergências entre os empresários do Judas Priest e a produção posteriormente mudaram o nome da película para Rock Star.

Também colocando o Judas Priest em evidência, Rob Halford saiu oficialmente do armário em 1998. Não que fosse surpresa para quem acompanhava e prestava atenção nas letras da banda, ainda assim o gesto corajoso também foi encarado por parte da cena com um certo cinismo, acusando o vocalista de usar sua orientação sexual como uma forma de promover o lançamento de Voyeurs, único lançamento de seu novo projeto chamado 2wo, ao lado de John 5, do Marilyn Manson, sob supervisão de Trent Reznor.

Como esperado pelos nomes envolvidos, Voyeurs é um disco em sintonia com as vertentes em voga na música pesada da segunda metade dos anos 90. Influências do som industrial, com o balanço típico do groove metal noventista em algumas faixas até dançantes, 2wo é muito próximo do que faziam bandas como o já citado Marilyn Manson, White Zombie e Nine Inch Nails. Halford adicionou sua experiência em compor boas melodias e seu poder de interpretação para diferenciar o grupo do restante da cena, mas a fanbase do Judas Priest torceu o nariz para o lançamento, que teve pouca repercussão e o projeto foi logo engavetado.

Enquanto o Judas Priest vagarosamente preparava um novo álbum, Rob Halford resolveu voltar com tudo para o heavy metal clássico. Resurrection foi lançado em 2000 e mostrava o vocalista acompanhado de músicos novatos famintos, num álbum que retomava a linha de Painkiller e a expandia retroativamente ao som clássico de sua ex-banda, em uma produção bem moderna, cortesia de Roy Z, guitarrista que fazia o seu nome ao lado de Bruce Dickinson na carreira solo do ex-vocalista do Iron Maiden e já tinha dado a mesma atualização de sonoridade em Chemical Wedding, de 1998.

A trinca inicial de Resurrection formada pela faixa título, Made in Hell e Locked and Loaded já nasceu clássica. Silent Screams, carro-chefe do disco, é um épico que rivaliza com os maiores clássicos do Judas Priest. Um dueto com Bruce Dickinson em The One You Love to Hate também chama atenção e quase virou um projeto envolvendo os dois cantores e Geoff Tate, do Queensrÿche. As demais músicas, como Cyberworld, Drive e Savior não diminuem o ritmo, ainda que não mantenham o padrão altíssimo das outras faixas.

As coisas pareciam estar voltando aos trilhos e tudo indicava que o novo milênio já traria a reunião de Rob Halford com Judas Priest. Mas ainda levaria alguns anos e alguns percalços na nova década para acontecer.

A reconstrução da banda no novo século

Em janeiro de 2001, Rob Halford coroou a turnê de seu grande retorno ao metal tradicional com uma bombástica apresentação na volta do Rock in Rio, ao lado do então novato e em ascensão Queens of the Stone Age, do reformado Sepultura pós-Max Cavalera e do reunido e celebrado Iron Maiden.

Pressionado pelo sucesso do retorno à raízes do ex-vocalista, o Judas Priest lançou apenas em 2001 o sucessor de Jugulator e falhou miseravelmente. O que deveria soar como uma volta ao som mais tradicional da banda acabou parecendo em momentos uma tentativa de atrair os fãs do famigerado post-grunge e nu-metal. É impossível ouvir o pastiche de Linkin’ Park Metal Messiah sem querer arrancar os ouvidos e quebrar o CD.

Não que inexistam alguns bons momentos. Machine Men abre o disco de forma até empolgante, oferecendo velocidade e peso conseguindo dar uma roupagem mais moderna à sonoridade clássica da banda. Infelizmente, Demolition ofereceu pouco mais do que isso: uma ou outra interessante faixa mais sinistra, como Jeckyl and Hyde ou Hell is Home, enquanto nas razoáveis One on One, Bloodusckers e Feed on Me o grupo repetiu com um pouco mais de melodia a fórmula do peso de Jugulator, além da bonita e ordinária baladinha Lost And Found. No geral, o gosto amargo de músicas muito fracas como o post-grunge de Close to You e Devil Digger ou a pavorosa aproximação com o nu metal em In Between, Subterfuge e Cyberface.

Ainda que Tim Owens estivesse longe de ser um problema, ficava cada vez mais claro que não tinha como o Judas Priest funcionar sem Rob Halford. Agora que Halford tinha feito as pazes com o metal tradicional, a reunião parecia apenas questão de tempo. A espera foi ocupada com mais um disco ao vivo do Judas Priest, o completamente esquecível Live in London de 2003, e um disco de ambições mais modernas de Halford, Crucible, lançado um ano antes.

Partindo da sonoridade de Resurrection, como nas músicas  Betrayal, One Will e Handing Out Bullets, em direção a faixas mais sinistras como Crucible, Hearts of Darkness, Golgotha ou outras mais lentas e atmosféricas, no caso de She, Fugitive, Crystal e Sun, o disco não obteve a mesma aclamação de seu antecessor, mas não decepcionou e manteve a credibilidade de Rob Halford como um músico que está sempre procurando renovar o seu som.

Nenhum fã de Judas Priest naquele momento, no entanto, queria algo além do som clássico da banda bem feito de novo. E, para isso, precisou esperar até 2005, não sem antes uma mais-do-que-aguardada e celebrada turnê de reunião em 2004 e uma dose de dramaticidade. O baterista Scott Travis, num momento de descuido, deixara escapar numa sessão de autógrafos que o Judas Priest havia feito uma proposta de reunião com o ex-vocalista logo após a turnê de divulgação do malfadado Demolition, mas ele não tinha se manifestado ainda e a banda aguardava sua resposta para decidir como proceder. O management da banda negou com veemência para virar motivo de piada quando a volta enfim se concretizou.

Inicialmente, a banda lançou um boxset, Metallogy, e saiu numa turnê de reunião tocando todos os seus hits em grandes festivais de verão pelo mundo em 2004, anunciando o lançamento de um novo álbum com faixas inéditas ao final daquele mesmo ano. Com um pouco de atraso, no início de 2005, o primeiro disco de Judas Priest com Rob Halford em 15 anos estava nas lojas, Angel of Retribution.

Produzido por Roy Z., o mesmo dos últimos trabalhos solos de Rob Halford, já estava claro que o vocalista seria peça-chave no direcionamento artístico dessa nova era do Judas Priest. A aposta se mostrou acertada, pois a sonoridade de Painkiller foi retomada e atualizada, conseguindo ser moderna sem perder as características típicas da clássica dupla de guitarristas. Angel of Retribution é agressivo, mas tradicional até o osso, como se o disco anterior com o regresso cantor tivesse saído apenas um ano antes e a fase Owens fosse apenas um pesadelo a ser ignorado.

Judas is Rising abre o disco com um riff bem rápido e pesado contraposto a um andamento de bateria meio de freio de mão puxado, criando uma atmosfera bem agressiva, que se solta nas rápidas Deal with the Devil, Demonizer e Hellrider, mas se perde quando desacelera um pouco  na cavalgada Revolution ou em Wheels of Fire. Duas baladas deixam o ambiente mais ameno do disco, a bobinha Angel e a empolgantemente crescente Worth Fighting For, enquanto Loch Ness é um doom metal à la Candlemass e se tornou uma das faixas mais soturnas de toda a discografia do Judas Priest até então, ainda que se estenda além da conta em seus quase treze minutos.

A repercussão do disco foi ótima e, mesmo que Angel of Retribution não tenha demonstrado qualidade suficiente para se tornar um clássico da banda, pelo menos pareceu um passo no caminho certo, celebrado em uma turnê de divulgação de sucesso que culminou com um DVD ao vivo Rising in the East. Mas quem achava que o Judas Priest ia seguir na direção apontada pelo álbum estava muito errado.

Nostradamus, lançado em 2008, é um disco duplo, conceitual baseado na história do visionário do século XVI. Cheio de efeitos orquestrados, vinhetas e coros, é o trabalho mais ousado da história do Judas Priest. E, infelizmente, um dos piores.

Não que faltem boas músicas nos mais de 100 minutos de Nostradamus. Relevadas as introduções e outras bobagens, o disco começa com a empolgante Prophecy, a pesada War, a vibrante Pestilence and Plague e a soturna Death, uma espécie de versão bem editada do doom de Loch Ness no álbum anterior. Em geral, a primeira metade do álbum se escora nas canções de tempo moderado e na criação de atmosferas densas, e não se sai tão mal assim.

A segunda metade do disco é onde a banda se perde. Focado em baladas bem teatrais, Halford até se destaca deixando seu lado mais performático se soltar com interpretações convincentes, apesar da temática bem tola. Mas o andamento do disco é exageradamente pretensioso e músicas como Alone e New Begginings não entregam muito além de acompanhamentos instrumentais pouco originais para faixas em que o pieguice ganha contornos de dramalhão de musicais bem vagabundos. Quando a faixa-título começa, já é tarde demais para tirar o disco de uma profunda letargia, ainda que Future of Mankind encerre a epopeia de volta ao tempo moderado do primeiro cd de forma bem aceitável.

A ideia original de Rob Halford era fazer uma produção gigantesca e tocar Nostradamus na íntegra, mas a pobre recepção ao disco deve tê-lo feito mudar de ideia. Em vez disso, a tour de divulgação do álbum trouxe um dos repertórios mais cheios de canções não usuais nos shows da banda, e algumas dessas versões acabaram aparecendo em A Touch of Evil Live, lançado em 2009 com um apanhado de músicas das duas turnês recentes. No ano seguinte, a banda saiu em celebração dos 30 anos de British Steel tocando-o na íntegra, também rendendo outro trabalho ao vivo como bônus para o relançamento do disco.

Parecia que finalmente o Judas Priest se conformava com seu status de dinossauro do heavy metal. O baque maior viria com o anúncio da saída de K.K. Downing, então se aposentando de turnês. Desfeita a clássica dupla de guitarristas da banda, não se esperava nada além do seu final, confirmado através de uma turnê de despedida, Epitaph, com a parceria com Glenn Tipton assumida por Richie Faulkner, até então um músico de apoio da desastrada carreira musical da filha do baixista do Iron Maiden, Lauren Harris.

O Judas Priest deu a volta ao mundo em 2011 e 2012, que ficou boquiaberto com a boa performance do novo guitarrista e a vitalidade ainda esbanjada pela banda no palco, com um repertório longo e compreensivo de toda a sua carreira, incluindo Never Satisfied, faixa do sempre ignorado primeiro disco do grupo. A ótima repercussão fez o grupo lançar o DVD Epitaph em 2013 e descartar os planos de aposentadoria, anunciando um novo álbum.

Veio então Redeemer of Souls, em 2014, o primeiro disco do Judas Priest sem contar com sua histórica dupla de guitarristas. Depois de muito tempo, a banda procurou reproduzir a sonoridade de seus álbuns dos anos oitenta, deixando a agressividade de Painkiller mais localizada em faixas como Metalizer, Halls of Valhalla ou Battle Cry.

No mais, o álbum é um belo apanhado da carreira da banda – Crossfire traz até uma certa influência de blues não vista desde Rocka Rolla. Com Richie Faulkner esbanjando vitalidade, o disco navega por canções mais aceleradas como Dragonaut e Down in Flames, trabalha muito no tempo médio de Redeemer of Souls e March of the Damned, além do destaque épico de Sword of Damocles, a música que o Iron Maiden vem tentando fazer sem sucesso desde o retorno de Bruce Dickinson.

Apesar de as baladas não serem grande coisa, as bonitinhas Beginning of the End e Never Forget retomam uma linha folk abandonada nos anos 70, enquanto em Snakebite, Creatures e Bring it On, o álbum acaba acenando à época mais comercial do Judas Priest.

No entanto, ao longo de mais de uma hora de duração – quase 80min incluindo as boas faixas bônus da edição especial -, mesmo apresentando ótimas músicas e sendo bastante versátil, o disco soa um pouco cansativo. Rob Halford canta a maior parte do tempo numa zona de conforto de tons médios, a produção de Mike Exeter não foca tanto no peso e, ao lado do tempo moderado da maioria das faixas, parece não haver força suficiente para soar cativante nesse em sua totalidade.

Força que já aparece exacerbada na primeira música de Firepower, álbum do Judas Priest lançado em março de 2018. A faixa-título já é uma pedrada e, seguida pela veloz Lightning Strikes e agressiva Evil Never Dies, demonstra muito mais vigor do que no álbum anterior. Andy Sneap dá a mesma solidez das produções dos álbuns recentes do Accept ao grupo, ainda que isso descaracterize um pouco a tradicional sujeira da seção rítmica da banda para uma batida mais reta.

A produção também é divida com Tom Allom, da clássica fase oitentista do grupo, que ajudou o Judas Priest a recapturar a magia das faixas mais melódicas na época, como nas ótimas mais moderadas Never the Heroes, Rising from Ruins e Spectre. Não faltaram faixas mais aventureiras, em que a banda concilia ideias mais ousadas e concisão, como Flame Thrower e Traitors Gate. A trinca de encerramento expõe a versatilidade e perene qualidade de Firepower na empolgante Never Surrender, a bluesy Lone Wolf e a linda e densa Sea of Red.

É difícil dizer o que será do futuro do Judas Priest após Firepower. Glenn Tipton, apesar da doença, continua envolvido nos negócios da banda e de vez em quando até dá uma canja ao vivo em faixas mais simples, virando momentos emocionantes de alguns shows para sortudos. A capacidade para continuar compondo e se tornar um diretor artístico em futuros lançamentos não parece ser questionada por nenhum companheiro.

A outra guitarra ficará a cargo de Andy Sneap, que deixaria de lado seu trabalho principal como um dos produtores mais requisitados do heavy metal contemporâneo? KK Downing até se ofereceu para um retorno; o músico, que aparentemente está falido, já vendeu seus direitos autorais das músicas da banda, mas se queimou com declarações infelizes sobre o grupo nas entrevistas em divulgação do seu livro de memórias recentemente lançado.

Num mundo em que a geração de músicos que se consagrou nos anos 70 parece cada vez mais perto da aposentadoria, sofre com cada vez menos raras doenças e começa a se acostumar em ter de lidar com a perda de seus ícones, ver o Judas Priest esbanjando vitalidade é um privilégio. Se Firepower tiver sido a verdadeira despedida, a carreira de uma das mais importantes bandas da história do heavy metal terá se encerrado de forma digna.

Anúncios

Top 10 2015

Publicado: 31/12/2015 por Thiago Martins em Lixo inútil, Mesa de boteco
Tags:, , ,

10) Tribulation, Children of the Night: a banda sueca cada vez mais deixa de lado a agressividade da época do death metal, mas o passado extremo ainda influencia na aproximação com o rock setentista e o hard rock, tornando o disco bem sui generis na mistura do vocal sujo, melodias pegajosas em arranjos pesados e empolgantes.

9) Deafheaven, New Bermuda: Sunbather deu o que falar uns anos atrás com a tentativa dos americanos de fazer aquela mistura de black metal e shoegaze fugindo ao máximo de qualquer estereótipo de heavy metal. Em New Bermuda, não há essa preocupação e o disco soa mais orgânico e espontâneo, sem perder as inúmeras qualidades do antecessor, como agressividade extrema e melodias lindas.

8) Crypt Sermon, Out of the Garden: Num ano muito bom para o doom metal tradicional – Khemiss, Sorcerer e Magic Circle lançaram discos excelentes, o destaque ficou com a estreia dessa banda americana, e seu disco claramente a coloca em primeiro lugar na linha sucessória do trono do Candlemass. Nada muito inovador para essa linha do estilo, mas surpreende o alto nível pouco visto em tempos recentes. Devagar, melódico, pesado. E muito épico. Como tem que ser.

7) Swallow the Sun, Songs from the North Vol 1, 2 & 3: Para lançar um disco triplo precisa de bastante coragem, pois a chance de alguém dedicar quase três horas de atenção ao trabalho é mínima, mesmo para os pacientes fãs de doom e suas derivações. Mas os finlandeses se mostraram prontos para cumprir a missão e conseguiram lançar três discos num pacote coeso de altíssimo nível, variando da linha mais prog e triste para a podridão horripilante passando por uma linha mais melódica e quase folk sem velocidade alguma em uma jornada lindamente melancólica.

6) Clutch, Psych Warfare: O Clutch vai cada vez mais se caracterizando por não ser nem metal, nem hard rock, nem classic rock, mas tudo isso meio misturado numa atitude punk e um groove de quebrar os quadris da galera em arranjos sutis e nada convencionais. Intenso, pesado, cativante e pegajoso como são os shows da banda e como ela vem se especializando nos últimos álbuns, sempre com algumas surpresinhas ali e acolá para jogar seu queixo no chão quando menos se espera. O motivo de essa banda não ser headliner em estádios é uma incógnita que só justifica a falência da indústria musical.

5) Vhöl, Deeper than the Sky: John Cobbett é hoje facilmente o músico mais subvalorizado do metal americano. O corpo de trabalho da carreira do guitarrista com o Ludicra e o Hammers of Misfortune é de elevar ao saguão de maiores da história do metal. O segundo disco do Vhöl, seu supergrupo do underground metálico da costa leste dos EUA com Mike Scheidt do Yob e Aesop Dekker do Agalloch, além de sua esposa e parceira de Hammers of Misfortune Sigrid Sheie, apara as arestas nas quais o primeiro trabalho exagerou, mantendo o metal rápido quase thrash beirando o extremo com timbres sujos sem perder melodia, mas sem soar em momento algum previsível nem perder a espontaneidade das inspiradas composições.

4) Ghost, Meliora: Engraçado como esse disco foi subindo no meu conceito ao longo do tempo. Quando saiu, talvez nem entrasse num top 30. Aos poucos, mereceria uma menção honrosa, logo chegou ao top 10 e aqui termina num merecido top 5. Os suecos provaram que estão chegando à maturidade sem perdas em relação aos trabalhos anteriores. Os riffs poderosos e melodias cativantes da estreia já chamam a atenção logo de cara; as ideias nada convencionais do segundo vão aparecendo aos poucos, agora menos escancaradas. As letras soam mais inteligentes e, por isso, ainda mais satanicamente subversivas. Com Meliora, o Ghost chegou para ficar entre os grandes do heavy metal.

3) Enslaved, In Times: Quando o álbum foi lançado, para mim era claro que os noruegueses estariam entre os melhores do ano. O seu típico black metal mais contestador e celebratório da cultura viking do que satânico foi agregando elementos progressivos ao longo do tempo e, em In Times, chegou a um equilíbrio quase perfeito. Usa a agressividade extrema para temperar arranjos nada convencionais e melodias bonitas em composições muito bem estruturadas. O Enslaved cada vez mais se firma como uma espécie de Opeth do black metal e talvez chegue um dia a deixar de lado completamente o seu lado extremo. Ou não, pois nunca sabemos o que esperar deles e essa imprevisibilidade torna a banda tão cativante.

2) Baroness, Purple: Lançar um disco em dezembro é uma merda, pois raramente há tempo para absorver tudo que ele nos traz até fechar a lista de melhores do ano. Até pensei em deixar o Baroness de fora por causa disso, mas Purple é bom demais e seria uma extrema injustiça. Mais direto ao ponto e pesado que o fantástico Yellow & Green, sem perder as nuances ora progressivas, ora setentistas, ora alternativas, John Baizley tocou fundo nas feridas do grave acidente sofrido em 2012 para lançar um disco tenso, melancólico e cativante na medida certa para tirar a banda do underground sem perder credibilidade. Questão é saber se o péssimo estado atual do mainstream do heavy metal está pronto para lhes dar a merecida importância.

1) Royal Thunder, Crooked Doors: às primeiras ouvidas, Crooked Doors me decepcionou. Ter deixado de lado os elementos mais metálicos de CVI me deixou frustrado e, por isso, abandonei o disco por um tempo. Quando o revisitei alguns meses depois, já ciente de não ser um álbum de metal propriamente dito, foi difícil deixar de ouvi-lo, tamanha a força de suas melodias. Mlny Parsonz expõe seu coração em letras extremamente frágeis e tristes – o rompimento dela com o guitarrista da banda Josh Weaver dá o tom das músicas -, sem abusar de sua absurda potência vocal, usando-a sempre a favor da construção das belas e melancólicas atmosferas, modo pelo qual o parceiro mostrou também a sua frustração pelo acontecido, não tanto através de riffs, mas com licks aqui e ali, texturas ditando o clima nada ameno, sem deixar que o stress emocional exibido atrapalhe o prazer do ouvinte ao apreciar as composições. Por esse equilíbrio perfeito e cativante entre tensão e beleza, trauma e superação, ficou lado a lado com o Baroness na disputa de álbum do ano. Por mais que adore o jeito de cantar de Baizley, o diferencial é Parsonz, cujo vocal está num outro patamar.

***

Menções honrosas:

Duas grandes bandas da história da música pesada lançaram discos esse ano. Book of Souls mostrou que o Iron Maiden não está nem aí para quem, como eu, gostaria de vê-los tentando fazer algo mais direto e mais uma vez abusou de suas influências progressivas num desnecessário álbum duplo desgastante, alternando poucos momentos de brilho a outros extremamente enfadonhos. Mas a excepcional recepção ao disco por todo o mundo do heavy metal foi acima de qualquer expectativa e, num estilo cada vez mais dividido e ramificado, foi gratificante ver todas as tendências se ajoelhando para essa clássica entidade.

E por isso é que a morte de Lemmy no apagar das luzes de 2015 é ainda mais triste. Ninguém na história da música pesada foi capaz de unir tantos mundos quanto o baixista e vocalista Motörhead. Não há fã de punk, hardcore, grindcore, metal tradicional, classic rock, thrash, death e black metal ou qualquer outro estilo derivado do rock’n’roll que não o tenha na lista de referências. Felizmente, um álbum vigoroso como Bad Magic finalizou a discografia no alto nível mantido desde Inferno, capaz de rivalizar com sua era clássica.

Ainda tenho minhas dificuldades em imaginar o que é pensar nas possibilidades de um ano novo sem a expectativa de um show do Motörhead no horizonte. Que 2016 nos ensine sem tantos traumas.

Eram seis e meia da manhã de um sábado, dia 26 de novembro de 1.998, quando o meu microsystem despertou, ao som da introdução de Battle Hymn, do Manowar. A dias de completar meus vinte anos de idade, já estava acordado havia certo tempo. Era a ansiedade pelo então Philips Monsters of Rock, que ocorreria mais tarde.

Tinha uma prova ou um trabalho para entregar na faculdade, não me lembro ao certo. Apenas que, do prédio da Gazeta, já fui direto ao Ibirapuera, onde cheguei pouco antes da abertura dos portões da pista de atletismo. Duas de minhas obsessões da adolescência tocariam naquela edição, o Savatage e o Dream Theater. Mas o dia, para mim, era de ver o Manowar.

Não que fosse um daqueles seguidores apaixonados pela banda. Mas, naquela época quando, recém retornado do interior paulista, tentava me encaixar de novo na cidade grande, o TRUE METAL parecia a única coisa estável na minha então corrida e esquisita vida. Ver Manowar e, especialmente, Battle Hymn, era o objetivo daquele festival. O resto era bônus. Simples assim.

Não foi daquela vez. Mesmo o Savatage tendo um feito um show acima da minha expectativa (e o Dream Theater, abaixo), o Saxon devastador como sempre e até Glenn Hughes sendo preciso nas preciosidades do Purple, a frustração por ter visto o Manowar fazer todas as palhaçadas possíveis no palco, mas dele sair sem tocar Battle Hymn deu o tom frustrante do que foi a edição de 1998 do Monsters para mim, não importou quão ótimos ou péssimos tenham sido Megadeth e Slayer na sequência.

De certa forma, tudo isso soa hoje como um passado muito distante. Não só a minha vida mudou demais, como o que me ainda mantém empolgado ao acompanhar os desdobramentos desse monstreguinho chamado heavy metal em 2015 está basicamente no outro extremo do estilo – acabei de ouvir o sensacional Four Phantoms do Bell Witch e o disco novo do Monolord estoura as caixinhas do meu desktop, conhece?

No entanto, quando foi anunciado o cast de 2015 da renascido Monsters of Rock, o segundo dia me soou muito mais atrativo. Na pior das hipóteses, álcool e galhofa garantiriam a diversão – Judas e Accept sempre valem o ingresso. Mas, no fundo, era uma nova chance àquele moleque de 19 anos e 361 dias de 1998. O decadente Manowar já me desapontara de forma comicamente homérica com a esculhambação de 2010, mas nunca perdi a sensação de ter contas a acertar com a banda e o domingo seria o dia.

Não acreditava, de verdade, que o Manowar tocaria Battle Hymn no Monsters of Rock de 2015. Afinal, a banda já costuma deixá-la de lado na maior parte dos raros shows, Eric Adams não tem mais a potência de outrora e o tempo de set do festival não permitiria todo o circo usual de Joey de Maio e ainda uma faixa longa, sempre cheia de pausas e embromações.

Foi num misto de surpresa e alívio quando, por volta das oito da noite do domingo, vi o Manowar iniciando aquela introdução que me despertava quase vinte anos atrás. Como se finalmente aquele show do Monsters of Rock de 1998 na pista de atletismo do Ibirapuera terminasse. E um ciclo da minha vida tivesse um encerramento menos melancólico.

***

De certa forma, a própria edição de 2015 do Monsters of Rock foi um encerramento de um ciclo. Talvez mais do que isso, outra etapa na prorrogação da vida de dinossauros – no palco e fora dele. Pense em trazer todo o cast do festival para o mesmo 1998 referido acima. Pegue o setlist do Kiss, Judas Priest, Manowar, Ozzy Osbourne e Motörhead (em Curitiba mesmo), conte quantas músicas eles tocaram que já não poderiam estar no set há 17 anos. Não deve encher uma mão.

Se o Judas Priest, ainda esbanjando alguma vitalidade no palco, já acena diretamente com uma merecida aposentadoria, Lemmy e Ozzy vislumbram a morte cada vez mais próxima, enquanto Gene Simmons não tem papas na grande língua para assumir que substituirá a si mesmo e Paul Stanley para manter a máquina de dinheiro do Kiss funcionando sob as máscaras.

Entre os “dinossaurinhos” do cast, o Manowar é cada vez mais recluso em sua barulhenta insignificância com shows episódicos. O Unisonic é um novo spinoff do Helloween que agrega tão pouco quanto a carcassa do original há quase 30 anos. Malmsteen é uma piada velha de mau gosto. Só a formação atual do Accept parece ter algum futuro, com um vigor que talvez dure mais uns cinco anos.

Dos babyssauros nos dois dias do Monsters of Rock, o vocalista do Black Veil Brides teve um chilique e deixou o palco sob vaias. Rival Sons só empolgou as 200 pessoas já dispostas a prestar atenção neles de qualquer forma. Apenas o Steel Panther, que de novo só apresenta a piada, até por isso mesmo foi o único a conseguir arrancar uma resposta decente dos dinossauros do público.

Pois estes são os piores. Celebrando o Monsters of Rock como O MAIOR EVENTO DE METAL DO PLANETA, lotam dois dias de festival a preços salgados e não conseguem acompanhar nada que já não conhecessem há duas ou mais décadas. Rechaçam o Rock in Rio como “modinha” e pagam viagens caras para ver dinossauros pela enésima vez “antes do fim”, mal dando chance para bandas diferentes dos casts.

Gosto é gosto, cada um tem o seu, por mais errado que seja. E não sou eu quem vai dizer como cada um gasta seu dinheiro. Mas quem sabe um dia, quando estiverem putos com a mídia babando ovo para as atrações do enésimo Lollapalooza cheio de DJs e não ter mais nenhum headliner vivo para animar uma produtora a bancar uma edição de UM VERDADEIRO FESTIVAL DE HARD E METAL, percebam de quem foi a culpa.

Enquanto isso, deixa por Enter Sandman pra rolar aqui no Spotify…

Depois de postar as duas primeiras partes do meu relato sobre a edição de 2015 do 70,000 Tons of Metal (uma geral sobre como funcionou o Liberty of the Seas e o meu diário de bordo), vamos à parte final, com uma reflexão sobre os problemas desse cruzeiro num mercado em vias de saturação.

***

70000-tons-of-metal

De “aventura em alto mar” para “festival ostentação” bem precário, 70,000 Tons of Metal está ficando para trás.

Houve um tempo em que o 70,000 Tons of Metal era inovador. Um cruzeiro unindo bandas e público, shows rolando o tempo todo em alto mar, não havia nada parecido, era uma experiência única. Uma verdadeira aventura para organizadores, músicos e fãs.

Esses dias acabaram. Hoje, há um mercado agitado de festivais de música em cruzeiros. A escalação de cada navio já é esperada como o cast dos tradicionais festivais europeus de verão. A experiência já foi profissionalizada, com público esperando cada vez mais o melhor custo/benefício, seja na relação de bandas, seja nas atrações em alto mar, seja nas paradas do meio da viagem.

O 70,000 Tons of Metal, por outro lado, não conseguiu acompanhar essa mudança. A Ultimate Metal Cruises (UMC), sua organizadora, tenta, é verdade. Ainda que tenha elevado o seu padrão com um navio maior e bem melhor (as más línguas dizem não ter tido outra saída pelo barco anterior ter sido “aposentado” dos mares da Flórida), a experiência proporcionada é cada vez mais decepcionante, em todos os quesitos possíveis.

Em 2015, a empolgação pelo navio novo se viu logo desapontada pela longa espera no anúncio do cast completo e a sensação de “encher linguiça” devido às bandas de apelo reduzido confirmadas em cima da hora. O check-in no porto em Fort Lauderdale foi penoso, numa vagarosa e imensa fila, nada organizada. O principal palco do festival não conseguiu ficar pronto em tempo e as alterações do running order demoraram a ser confirmadas, numa comunicação precária.

Não é só isso. Há algo na essência do 70,000 Tons of Metal que parece ultrapassado. Logo de cara, é preciso rever essa postura de 60 bandas tocando dois sets em quatro dias. Há razoável variação de estilos e, com apenas 3 mil pessoas se dividindo em dois ou três palcos simultâneos além das atrações normais de um cruzeiro (restaurantes, bares, piscinas, spa, minigolfe, aulas de surf etc.), os shows de atrações de porte médio menos festejadas ficam cada vez mais restritos a uma meia-dúzia de fanáticos e mais uns duzentos perdidos entrando e saindo o tempo todo.

Isso porque o 70,000 não definiu um público-alvo específico dentro do metal. Talvez por medo de não encher as cabines, algo que tem ocorrido cada vez mais em cima da hora (apesar disso poder ser posto em dúvida se os lugares se esgotaram mesmo quando este anúncio só é feito na véspera do embarque, quando não há mais tempo suficiente para a compra, como nas duas últimas edições), a UMC prefira atrair todo o tipo de fã.

Não tem funcionado bem. Por exemplo, o fã médio de power metal tende a rejeitar bandas mais extremas, e vice-versa. No entanto, na América do Norte, os grupos mais tradicionalistas europeus chamam mais a atenção pela raridade do que as de death metal, que normalmente excursionam bastante no “novo mundo”. O problema é que é mais barato à UMC contratar esses últimos, pois boa parte mora nos Estados Unidos – quando não na própria Flórida.

Ou seja, quem está mais disposto a gastar dinheiro para ir ao 70,000 Tons of Metal vê o evento sendo recheado de grupos que não lhe atraem. Não à toa, quando os mesmos organizadores tentaram fazer o Barge to Hell, com um cast mais dedicado ao metal extremo (e de altíssima qualidade), o cruzeiro foi um fiasco de público. Afinal, qual fã de death metal estava disposto a gastar uma alta grana para ver as mesmas bandas de sempre?

Isso vem causando um racha muito grande no público regular do evento, que era cativo até outrora e, pela reação no fórum oficial do 70,000 Tons e na sua página de Facebook, começa a pensar duas vezes antes de garantir sua cabine. A primeira leva de atrações, sempre com nomes de mais impacto, não garantem mais a qualidade final do cast, principalmente para quem não curte metal extremo.

Por essa perene falta de identidade do público com boa parte das atrações, em vez de atrair o fã de metal, o 70,000 Tons of Metal está se transformando cada vez mais em um evento para quem quer curtir o cruzeiro. Nada de errado, afinal, o navio é muito divertido por si só. Mas, por causa disso, há menos empolgação do público durante os shows e a consequente queda no nível da performance das bandas. De aventura exótica em alto mar, virou festival de luxo. E a UMC, infelizmente, falha em alcançar esse padrão.

(Foto: divulgação)

Como eu já antecipei, foram muitos shows medíocres em 2015. E eu vi muitos deles. Tenho teorias sobre isso, mas vou elaborá-las na parte final apenas. Agora, dedico esse post a um relato quase cronológico da exaustiva aventura de 2015 a bordo do Liberty of the Seas durante o 70,000 Tons of Metal.

***

2) Diário de bordo

a) Quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Dia 01

O primeiro dia foi morno. O Trouble deu aula de doom; o Melechesh teve méritos no seu black metal estranho para público idem; Exumer tocou para quase ninguém e o Masacre trouxe a latinada suja para o teatro.

Dessa vez, cheguei na véspera do cruzeiro na cidade de Miami. Sem praias para mim na quarta-feira, pois fui ver o Torche, cujo show foi melhor que 99% das bandas vistas depois no cruzeiro. Assim, não pude sentir o clima do “mar de preto” da invasão dos banguers em Fort Lauderdale na véspera do embarque.

Saí na quinta de Miami em direção ao porto por volta de meio-dia, demorando uns 30min no trajeto de táxi. A chegada em Fort Lauderdale já foi tensa. Trânsito no porto e, sob um sol forte, uma fila grande, que só cresceria dali em diante graças a um check-in longo e pavorosamente lento.

Quase por volta das três da tarde, consegui embarcar e já tive a primeira ideia do tamanho do navio. Irritado com a demora e ensopado de suor, queria ir direto à cabine e tomar um banho ostentação. Quando cheguei ao deck 9, estava à altura da cabine 9253. A minha era a de número 9389. Isso significou ter de atravessar praticamente todo o monstrengo para chegar no quarto.

Hora do primeiro lanche no Windjammer Cafe, no décimo primeiro andar, onde era servido o buffet e pouco mais tarde rolaria o “ensaio geral” de segurança do navio, um momento moroso em que as pessoas são meticulosamente divididas para entender como proceder em caso de emergência, mas ninguém sabe se localizar ou presta atenção nos comissários, apenas fica procurando as “celebridades” próximas.

O primeiro show do cruzeiro coube ao Helstar (7,0) no Sphynx Lounge. Bem, não exatamente. Das últimas bandas a serem anunciadas, na verdade o show era quase um James Rivera solo, provavelmente um catadão de última hora para encher linguiça no navio. O vocalista mostrou seu gogó de praxe, clássicos do power metal texano foram bem executados, mas não pude ver nada, afinal, o cantor quase anão mal só se fazia notar pelo alcance intocado pelos anos.

Logo depois, caminhada rumo ao Platinum Theater para ver o show de reunião do God Dethroned (8,5), que mostrou seu black/death metal com perfeição e raça, num dos melhores sets de todo o cruzeiro. Por outro lado, o Pretty Maids (4,0) foi vergonhoso em sua apresentação Ice Rink. Os dinamarqueses pareciam sofrer de jet lag, num show já monótono para quem havia acabado de entrar no festival.

Pequena pausa para uma mini-refeição na pizzaria Torrentino’s do Royal Promenade antes de encarar o Annihilator (7,0) no Ice Rink. Os canadenses tinham o vocalista Coburn Pharr, do clássico Never, Neverland, como convidado para os shows do cruzeiro e tinha tudo para ser ultra-especial. Mas uma performance confusa acabou esfriando um pouco os ânimos, ainda mais quando a apresentação se encerrou de forma nada catártica com uma faixa mais obscura e desconhecida de King of the Kill.

Por outro lado, o Threshold (8,5) ganhou o prêmio de banda revelação do cruzeiro. Não que já não estivesse familiarizado com o prog-metal dos ingleses e esperasse a ótima execução de suas boas e complexas-sem-ser-chatas músicas, mas não sabia do carisma de seu vocalista Damian Wilson, fazendo-se notar no acanhado Sphynx mesmo para quem, como eu, não estava tão à frente da pista.

Deixei de lado o Kataklysm para ficar no Sphynx e tentar ver o Heathen (8,0), que tocavam quase ao mesmo horário. O veterano grupo da Bay Area fez uma boa apresentação, focada no seu mais recente e ótimo trabalho The Evolution of Chaos, cheio de canções longas e tortuosas, não menos pesadas, capitaneadas pelo excelente Lee Altus (também guitarrista do Exodus).

A opção posterior seria entre Apocaliptica e Korpklaani – mas não tinha uma Kaiser para tomar antes. Preferi então ir comer alguma coisa de novo na Royal Promenade e logo voltar o Sphynx para ver – na “grade” – o Trouble (9,0) fazer um dos melhores sets de todo o cruzeiro. Mandando seu tradicional doom, agora com o vocal do ótimo Kyle Thomas, a banda recheou seu set de clássicos de todas as fases. Surpreendeu-me quando encontrei o guitarrista Bruce Franklin no dia seguinte e ele me disse não ter gostado de sua exibição no dia e ter jogado um balde de água gelada em mim por não ter nada de diferente na manga guardada para a apresentação seguinte.

Um pouco zonzo do navio, mas nada comparado às tonturas psicodélicas do ano passado, fui tomar uns cafézinhos para me manter no pique no Torrentino’s e consegui pegar um pedacinho do Primal Fear finalizando seu set no Platinum Theater, mas logo me encaminhei para ver o ótimo Melechesh (8,0) tocar seu black metal todo cheio de influências esquisitas do oriente médio numa apresentação bem acima da média no Ice Rink.

Já eram três da manhã e eu havia me prometido não dormir cedo nessa edição do 70,000 Tons of Metal. Uma passada pelo Alestorm no Platinum Theatre fizeram a náusea que eu já sentia crescer e resolvi ir ao Ice Rink, sentar um pouco e esperar pelo thrash metal dos alemães do Exhumer (7,0), que recompensaram o meu esforço com muita disposição por parte deles, mesmo para um público reduzidíssimo, do qual os funcionários do navio em folga pareciam estar mais dispostos (e bêbados) que os headbangers de plantão na madrugada.

Pensa que acabou? Estava quase. Às quatro e meia da manhã, estava lá eu e basicamente toda a população de língua espanhola do cruzeiro de pé e fazendo festa para ver os colombianos do Masacre (7,5) botando todo mundo pra dançar com seu death metal old school, ingênuo e nojentamente delicioso, encerrando primeiro dia de cruzeiro por volta das 5 e meia da manhã, porque ver Dark Sermon ao amanhecer, ninguém merece.

b) Sexta-feira, 23 de janeiro de 2.015

Dia 02-01

O agitado segundo dia teve grandes shows comandados por Michael Schenker com seu Temple of Rock e o Venom de Cronos; o Refuge de Peavy Wagner não teve tantos méritos tocando velharias do Rage.

Após umas três horas e meia de sono, tinha que chegar cedo para tomar o café da manhã no restaurante, servido apenas até às 9:30 da madrugada, afinal, uma boa refeição matinal para aguentar o dia que prometia ser puxado, e começaria com o ótimo show do Tank (8,0) no Platinum Theater, desfilando seus clássicos da NWOBHM com toda pompa sob o surpreendente vocal de ZP Theart, antigo cantor do Dragonforce, sem se deixar levar pelos insuportáveis gritinhos característicos de sua ex-banda.

Em seguida, deveria ter rolado um show do Corrosion of Conformity no Pool Deck. Mas graças à incompetência da organização do 70,000 Tons of Metal, o palco da piscina não ficou pronto no prazo e, assim, abriu-se uma janela das 11:30 às 13:45, quando Peavey Wagner se reuniria com dois membros da clássica formação do Rage para tocar velharias da banda sob o nome de Refuge. Sem fome para justificar uma invasão ao almoço chique, o jeito foi tomar umas Pinãs Coladas para matar o tempo.

O Refuge (7,0) fez uma apresentação ok no Platinum Theater. Tocando direito as músicas velhas – longe da proficiência técnica da fase mais recente sob comando do excepcional Victor Smolski -, o show foi um desfile agradável de canções quase esquecidas na memória, mas sem qualquer brilho. Triste foi a notícia da separação do lineup atual do Rage e isso foi o que sobrou.

Mais um clarão se formou das 14:30 até o Cannibal Corpse entrar no Platinum Theater às 17:00. Tentei ir à tenda de merchandising, mas, como no passado, a fila estava impraticável – gigante, morosa, uns poucos coitados atendendo centenas de pessoas vagarosas nas suas escolhas. Restou dar uns chochilos na cabine para recuperar o sono insuficiente do dia anterior.

Logo mais, estava eu assistindo ao desfile de poesias líricas de George Corpsegrinder Fischer e o Cannibal Corpse (8,0) no Platinum Theater. Há certas coisas que não existem, como um show ruim desses veteranos do death metal. Divulgando um bom disco como A Skeletal Domain, é gol certo. Destaque para a ótima nova Kill Or Become, uma bela adição ao set.

Depois do Cannibal, já eram seis da tarde e nada do palco da piscina pronto. Foi quando, arrisquei passar na área de merchandising e a fila parecia humanamente encarável. Lá fui e, após “apenas” 40min, consegui comprar uma camisa do cruzeiro e uma bem mequetrefe do Trouble (até eu faria um silk melhor), apenas pra colaborar na vaquinha da erva dos velhotes.

Às 19:00, era hora de ver o Michael Schenker dar uma aula de rock’n’roll no Platinum Theater com seu Temple of Rock (9,0), comandado pelo ótimo e cada vez mais rechonchudo Doogie White nos vocais, e com a clássica cozinha do Scorpions (Francis Bucholz e Herman Rarebell). Hinos do UFO, do Scorpions e de seu MSG foram executados ao lado de umas poucas músicas novas, sem contar o absurdo e inestimável solo do guitarrista em Rock Bottom para encerrar a apresentação.

Dia 02-02

O segundo dia também teve sua cota de violência, como de praxe para o Napalm Death, o Cannibal Corpse e o Monstrosity. Já o Behemoth provou sua grande fase sob o luar.

Finalmente, com dez horas de atraso, o Soulfly inaugurava o Pool Deck apenas às 20:00 da sexta-feira, mas na mesma hora o Napalm Death (8,0) se apresentava no Ice Rink e nem deveria precisar dizer que os veteranos do grindcore fizeram por merecer a atenção lhes confiada, mesmo com a pista molhada do gelo no piso do local prejudicando a abertura de rodas mais intensas para acompanhar a violência do grupo inglês, sem Mitch Harris e com Danny Herrera estreando nas seis cordas.

Conferi um pouco do show do death sinfônico e melancólico do Wintersun (6,5) no Platinum Theater, que, apesar da execução perfeita, não era capaz de animar qualquer alma recém-saída do ataque do Napalm Death. Em seguida, foi a vez de Lee Garrison consolidar seu posto de embaixador da podreira no 70,000 Tons of Metal e, nesse ano, exibir o death metal sem frescuras do Monstrosity (7,5) no Ice Rink, com aquela boa e divertida violência, apesar da sentida ausência de seu ex-vomitador George Fischer, que poderia dar uma aparecida para relembrar velhos tempos.

No entanto, o encavalamento burro de horários me fez perder os primeiros minutos do sensacional show do Venom (9,5) no Pool Deck, pela primeira vez me aventurando por espaços abertos no cruzeiro. Apesar de já passar das dez da noite, a diferença para o ambiente de ar condicionado era desgastante, mas ainda assim Cronos fez o melhor show dele que já presenciei, mesmo tendo perdido a abertura com o hino Black Metal.

Deu tempo de conferir boa parte da guerra de travesseiros na pista do Ice Rink promovida pelo death metal “sui generis” do Origin (7,0) e ainda pegar um pedaço relevante do Blind Guardian (6,5) tocando mal e toscamente, como de praxe, os clássicos Bright Eyes e Majesty antes de subir de volta ao Pool Deck.

Afinal, já passava da meia-noite, as crianças já estavam na cama e o Behemoth (9,0) tinha carta branca (preta?) para promover extraordinariamente seu ritual satânico diretamente à lua, num set mais focado no último e sensacional disco The Satanist, ainda que o público já demonstrasse um certo cansaço e o calor não ajudasse muito.

Depois, para tirar o demônio do corpo, nada como um show de metal old school com a atual encarnação do Riot. Infelizmente, não funcionou. Essa mania de velhas bandas americanas descaracterizarem seu power metal sujo com vocalistas de tons altíssimos e insossos já prejudicou o Vicious Rumors e agora fez o mesmo com o Riot V (5,0), numa das apresentações mais sem graça de todo o cruzeiro.

Para vencer o sono, o jeito foi tomar um porre de café, mas sem saco de suportar a sauna a céu aberto do Pool Deck, arrumei uma boa poltrona para ver o 1349 (7,0) resgatar com muito ódio no coração o black metal old school norueguês numa apresentação boa o suficiente para não me fazer dormir confortavelmente nas cadeiras superiores do Platinum Theater.

O sono falava alto, eram quase quatro da manhã, e só mesmo os palhaços do Municipal Waste (8,0) para me manterem acordardo ao quase-amanhacer na estufa do Pool Deck. O retro-thrash dos americanos foi divertido, ora mandando a galera invadir a jacuzzi que ficava estrategicamente no meio da pista, ora entusiasmados pela chegada das 4:20 da madrugada e então eles poderiam celebrar o canábico “four-twenty”. Como fizeram, obviamente.

O show se encerrou pouco depois disso e até tentei encarar o Abandon Hope no Platinum Theatre, mas a menos que sua banda se chame Metallica, não faz o menor sentido usar um tema longo instrumental de introdução pré-gravado às quase cinco horas da manhã. Foi a senha para voltar à cabine e descansar um pouco antes de encarar os ares esfumaçados jamaicanos em algumas horas.

c) Sábado, 24 de janeiro

DSC_0317

Apreciar a vista do porto de Ocho Rios valia mais a pena do que ter se aventurado pela Jamaica.

Nem vi a hora exata quando o navio atracou em Ocho Rios, mas o despertador estava marcado para acordar em tempo de ir tomar café da manhã antes das nove e meia da manhã  e assim o fiz, mais uma vez me deliciando com Eggs Benedict e fazendo uma refeição boa o suficiente para aguentar um dia que prometia ser bem corrido.

Nenhum passeio me chamou a atenção. Resolvi encarar as ruas próximas ao porto de Ocho Rios, um passeio pela praia na região, uma visita a um boteco onde rolavam umas bizarras competições divertindo os metaleiros e de volta ao navio para um embuchar uns hambúrgueres no Johnny Rockets às quatro da tarde antes de encarar os primeiros shows do caminho de volta a Fort Lauderdale.

Dia03-02

Terceiro dia de correria com a brutalidade do Jungle Rot e do Enthroned em oposição ao surpreendente e agradável prog metal do Threshold.

E a primeira banda que (quase) vi foi o Jungle Rot (7,0), tocando seu death metal por volta das cinco da tarde no Sphynx. O lugar não muito empolgava tanto, mas os americanos fizeram por merecer um pouco de atenção num dia disputado além do normal, pois a organização enfiara os sets adiados do Pool Deck na sexta-feira no lugar de um desnecessário campeonato de hockey que ocuparia o Ice Rink no sábado.

Emendado ao Jungle Rot, foi correria para ver o Whiplash (6,5) tocar sem lá muito brilho ou inspiração seu thrash old school no Platinum Theater. Também sem tempo para descanso, era hora de ver uma das bandas canceladas da sexta, o Corrosion of Conformity (8,0). Bem, não exatamente o CoC, pois apenas Reed Mullin estava na banda, mas ainda assim relevante pela presença do clássico vocalista Karl Agell para celebrar o ótimo disco Blind, executado com eficiência praticamente na íntegra.

Hora, então, de conferir de novo os surpreendentes ingleses do Threshold (8,5), que de novo mandaram uma ótima apresentação, dessa vez no Platinum Theatre, visível para todos os olhos, num set totalmente diferentes de músicas, mas não de primor de execução e bom gosto.

Finalmente chegara a hora de ver o Amorphis (9,5), outro dos shows transferidos do Pool Deck no dia anterior para o Ice Rink, numa belíssima apresentação, focada na fase recente da banda, já após a entrada de Tomi Joutsen na banda. O vocalista desfilou todo seu cabelo e carisma junto ao público, que cantou junto e alto as músicas dessa última década de renascimento do grupo finlandês.

dia03-01

As bandas deslocadas da piscina pela incompetência da organização do dia anterior: Amorphis brilhando, Karl Agell fazendo valer a pena o inapropriado uso do nome COC e Chris Boltendahl treinando as gargantas das pessoas.

Já passava das nove da noite e o Grave Digger (7,0) fazia o seu tradicional show mezzo power mezzo metal tradicional no Platinum Theater, estragado em várias partes pelo fraco guitarrista Axel Ritt, incapaz de dar peso aos riffs e trágico nos timbres e melodias dos solos, mesmo com Chris Boltendahl mantendo o público aceso e participativo.

Nada animado para ver o Wintersun, muito menos perder meu tempo com o In Extremo, sobrou um tempo para relaxar com uma razoável IPA chamada Redhook enquanto esperava o Behemoth (8,0) voltar ao palco do Platinum Theater para outro show destruidor, dessa vez mais focado no material mais antigo e violento, que infelizmente não me chama tanto a atenção, apesar de abrir incessantes rodas na pista.

Então era meia-noite e hora de conferir o Destruction (8,0) no Ice Rink, o último dos shows deslocados do Pool Deck na sexta-feira. E o grupo de Schmier fez o que sabe melhor, thrash cheio de blasfêmias e violência, botando os corpinhos para chacoalhar na pista durante quarenta e cinco intensos minutos.

Sem muito o que fazer, foi hora de tentar ver um pouco do folk metal épico (ahn?) do Ensiferum (6,0) e chegar à perene conclusão de o estilo não ser para mim, enquanto esperava por outro set avassalador do Napalm Death (8,5) no Pool Deck, dessa vez mais lotado de músicas do sensacional disco então ainda a ser lançado Easy Meat / Apex Predator, que funcionaram muito bem ao vivo.

Disposto a não deixar a noite acabar, conferi metade dos shows do razoável folk-metal do Equilibrium (7,0) no Platinum Theatre e o violento black metal belga do Enthroned (7,0) no Ice Rink. Queria ver o Gama Bomb, que começaria apenas às 05:15, mas eram 03:45 e o prog-metal dos noruegueses do Divided Multitude me deu mais sono ainda nos seus primeiros dez minutos. Tentei em vão visitar o karaokê. A verdade é que passava das quatro da madrugada e eu não me segurava em pé. Derrotado por bandas medíocres, fui dormir.

d) Domingo, 25 de janeiro

Dia 04-01

O último dia teve ótimo show do Heathen, enquanto o Anvil e o Primal Fear foram eficientes no Pool Deck.

O despertador estava lá, firme e forte, pronto para me acordar em direção ao café da manhã dos campeões gourmets. Achei que fosse desencanar pelo cansaço, mas o sangue paulistano falou mais alto e acabei indo ao restaurante mesmo assim, sem aquele banho ostentação matinal e com cara de extremamente acabado. Era o último dia, força.

Logo às dez da manhã, o Anvil (7,5) tocou no Pool Deck e eu juntei os cacos, amarrei na mão uma caneca daquele delicioso café americano que mais parece um chá preto de gosto estranho e fui encarar todo aquele maravilhoso sol sobre a minha cabeça para ver os palhaços eternos-losers canadenses numa apresentação animada até demais para quem via a cegueira se aproximando tamanha a claridade.

Hora então de ver um pedaço do Triosphere, mas foram necessários só alguns minutos do prog metal norueguês para desmaiar nas arquibancadas do Ice Rink sem sequer ideia do que acontecia no palco.

A melhor coisa a fazer, intui, era encarar o desgracento sol e conferir o power metal dos alemães do Primal Fear (7,5), surpreendentemente animado para um show ao meio-dia da madrugada. Ralph Scheepers errou o nome do brasileiro Aquiles Priester quando anunciou o baterista, mas, velho, ich verstehe dich.

Precisou chegar o Heathen (8,5) para iniciar o ritual do verdadeiro despertar, mesmo que a acolchoada cadeira do Platinum Theater me puxasse ao mundo de Morfeu numa incessante batalha pelos meus olhos. Tocando basicamente o mesmo set da primeira apresentação, apenas com a adição de Hypnotized antes do medley de Open the Grave e Death By Hanging no final, o grupo da Bay Area se mostrou mais animado num palco maior com mais público.

Fui ver um pouco do 1349 no Ice Rink, mas logo voltei ao quarto para tomar aquele banho para despertar de vez em tempo de voltar para ver o segundo set do Cannibal Corpse (8,5), sob um vento insalubre no Pool Deck, como se um ciclone ganhasse força a cada música tocada pelos veteranos do death metal, num set pouco, mas significativamente diferente, e um pouco melhor.

Fui tentar ver um pouco do final da jam de Jeff Waters no Platinum Theater, mas quando cheguei a zoeira toda já tinha terminado. Sem vontade de ver o Grave Digger de novo, muito menos jogar minhas escassas forças no lixo com o Trollfest, resolvi me posicionar na grade para o show seguinte, o mais esperado por mim no cruzeiro.

Dia 04-02

Três momentos inesquecíveis do no último dia: o vento insalubre durante o Cannibal Corpse, o magistral Thousand Lakes set do Amorphis e o eterno solo de Michael Schenker em Rock Bottom.

Pois era a hora de o Amorphis (10) tocar, na íntegra, o fabuloso Tales from the Thousand Lakes. E toda a espera valeu a pena, desde o começo com Into Hiding até as reverberações finais de Magic and Mayhem, pois a banda foi capaz de recriar perfeitamente toda a atmosfera sombria e melancólica do álbum no show, que ainda teve o cover do Abhorrence e a grandiosa My Kantele finalizando o melhor set de todo o cruzeiro.

Dali para frente, poderia ser só figuração, mas o templo roqueiro de Michael Schenker (9,5) não deixou por menos e, num set ligeiramente diferente e melhor em relação ao apresentado dois dias antes, agora num Pool Deck com mais músicos de outras bandas do que de público pagante do cruzeiro. Quando mais uma vez o guitarrista executou o precioso solo de Rock Bottom, estava explicado o motivo.

Havia um certo respiro depois do show do gênio alemão das seis cordas, então resolvi pela única vez fazer uma refeição no restaurante. Era hora do jantar e mandei uma carne deliciosa que foi responsável por agregar um pouco mais de forças para a reta final, iniciado ao ver quase na íntegra o não muito inspirado set do Soulfly (7,0) no Platinum Theatre, ainda que Marc Rizzo excepcional na guitarra e o carisma de Max Cavalera segurem facilmente o show.

Então, o momento mais difícil para mim. Na mesma hora, tocariam o Trouble e o Annihilator. Nas minhas andanças de festival, encontrara Bruce Franklin e Coburn Pharr. O primeiro me dissera não terem ensaiado nenhuma música além do repertório da sexta-feira. O ex-vocalista canadense dizia que cantaria faixas diferentes de Never, Neverland. Com dor no coração, fui ver a trupe de Jeff Waters.

E fiquei com raiva. Porque atrasou quase quarenta minutos para começar o set dos canadenses – com direito a chilique no palco de Jeff Waters com a falta de suporte da organização -, tempo suficiente para ter visto o show inteiro do Trouble e voltar na parte que me interessava do Annihilator (8,5), cuja apresentação foi bem superior à primeira, com um setlist diferente e mais equilibrado para manter o público animado.

Com o atraso do Annihilator, acabei perdendo boa parte do set do Venom (7,5) no Platinum Theater. Dessa vez, o clássico grupo executou na íntegra o seu disco novo. Por melhor que From the Very Dephts seja, não garante sozinho um show de alto nível. Mesmo com algumas preciosidades como 1000 Days in Sodom no bis, um clima mais cabisbaixo de fim de festa predominou.

Disposto a me segurar acordado, fui conferir o Blind Guardian (7,0) encerrando as atividades do Pool Deck. E até que foi divertido. Ciente da ruindade ao vivo da banda (timbres péssimos, carisma zero, vocal fraquíssimo e incapacidade de reproduzir os complexos arranjos de estúdio), esperava apenas ouvir as músicas velhas e fui correspondido com uma overdose dos anos 90 para relembrar a minha adolescência ao lado de uma pista repleta de brasileiros cantando tudo a plenos pulmões.

Dia 04-03

A maratona final teve o Coburn Pharr se juntando a Jeff Waters no atrasado show do Annihilator; Max Cavalera e Cronos liderando Soulfly e Venom em sets nada memoráveis; muita gente gritando para não ouvir a tradicional fraca performance do Blind Guardian e o Destruction encerrando as atividades.

Desci para acompanhar no Platinum Theater o set do Destruction (7,5), que deveria por um ponto final na aventura de 2015 do 70,000 Tons of Metal. Mas, mesmo com todo o esforço de Schmier para manter a violência correndo solta, parecia repescagem de balada, com a pista cheia de bêbados fantasiados completamente sem noção.

No entanto, o último show coube ao Alestorm, originalmente programado para o Pool Deck pela manhã, mas por motivo de saúde (ressaca das bravas?), acabou adiando o show para as duas da madrugada no Ice Rink. Sequer tive interesse em ver, mas, quando conversava com jornalistas gringos, músicos e, principalmente, a galera da equipe técnica (que sempre conta as histórias mais engraçadas) entre o cassino e o karaokê, vi um cidadão sendo carregado pelo público escada abaixo – depois me contaram ter sido o senhor responsável pelos vocais dessa banda.

Era aproximadamente umas quatro da madrugada a hora em que joguei a toalha e voltei para a cabine, rumo ao meu último sono antes de atracar em Fort Laurderdale e ter um longo dia sem seu tosco aeroporto, repleto de celebridades em estado semi-vegetativo.

E também com a certeza de que não voltaria ao 70,000 Tons of Metal de novo. Mas esse é assunto para o próximo post.

DSC_0487

A visão da área superior do Liberty of the Seas, com o Pool Deck finalmente pronto

Ano passado, fui ao 70,000 Tons of Metal e não posso dizer que foi uma das melhores experiências “metálicas” da minha vida. Longe, muito longe, de ser ruim, mas, pela relação custo-benefício, esperava muito mais do primeiro cruzeiro especializado em heavy metal e não me empolgava muito com a ideia de voltar.

Graças a uma conjuntura favorável, retornei em 2015. Havia uma expectativa diferente, pois o cruzeiro ocorreu num navio maior e com mais atrações. Em vez das 40 bandas dos anos anteriores, 60 embarcaram ao lado de agora 3 mil headbangers (50% a mais do que em 2014) no Liberty of the Seas em Fort Lauderdale, rumo a Ocho Rios na Jamaica.

Tentei ter uma experiência diferente. Enquanto em 2014, por não aguentar direito a viagem de navio, acabei ficando muito mais na boa, em 2015, fui ao sacrifício. Ao todo, dormi menos de 12 horas nas quatro noites a bordo do Liberty of the Seas, encarei shows madrugada a dentro como se não houvesse dia seguinte. E não sei se valeu tanto a pena. Mas chegaremos a isso.

Vou dividir esse relato em partes. A primeira, acompanhando este post, explica como foi a estrutura do 70,000 Tons of Metal no Liberty of the Seas. Depois, faço um relato do meu dia-a-dia-show-a-show nos quatro dias e termino com uma reflexão sobre a experiência toda e esse cruzeiro especificamente.

***

1) Evolução monstruosa de estrutura, mas persiste o baixo profissionalismo na organização

A estrutura do navio onde se deu a última edição do 70,000 Tons of Metal é bem maior que a do Majesty of the Seas. Há mais espaço nos andares, bem como existem mais e melhores opções de comida, bebida e diversão alheias aos shows, como mini-golfe e simulação de praias para a prática de surf.

Os shows em 2015 se dividiram em quatro palcos:

a) Sphynx Lounge: localizada num extremo do quinto andar (ou deck, no jargão “navilístico”),  é um mini-clube de baladas dentro do navio. Ou seja, acaba emulando um show numa casa apertadinha, palco baixo, visibilidade ruim, pista bem pequena com várias mesas ao redor dela, de onde era impossível ver qualquer coisa em frente à pista. Mas, diferente de 2014, o som tinha ótima qualidade. Quando acabavam as bandas no princípio da madrugada, abrigava o famoso e maluco karaokê do 70,000 Tons of Metal;

b) Ice Rink: é um ringue de patinação no gelo ao centro do segundo e terceiro decks do cruzeiro. Transformada num ótimo lugar para ver shows com boa qualidade de som, com pequenas arquibancadas andar ao redor da pista ótimas com excepcional visibilidade do palco e pista ampla. O problema é que, como o piso fora descongelado para o cruzeiro, o chão estava sempre molhado, algo incômodo para o equilíbrio de quem assistia aos shows.

c) Platinum Theater: o teatro situado no canto dos segundo, terceiro e quarto decks do cruzeiro. Dessa vez, a pista era mais curta, as cadeiras ao nível térreo começavam sem dar tanto espaço a quem estava de pé, e havia a possibilidade de se acompanhar os shows dos mezaninos. Também tinha boa qualidade de som.

d) Pool Deck: o mais problemático palco do festival, ao centro do 11º andar, sobre as piscinas principais do navio. Deveria ter sido aberto logo ao início do segundo dia de shows, mas a lentidão da organização demorou para deixá-lo pronto, causando alterações nos horários dos dias seguintes. Como também há diferentes jacuzzis espalhadas na cobertura do navio, a pista comportou vários degraus, mezaninos e uma banheira bem em sua parte central, o que atrapalhou a possibilidade de se curtir o show com mais empolgação logo à frente do palco, mesmo com ótima qualidade de som.

O trânsito entre os palcos não era dos mais fáceis. Com três deles localizados entre o segundo e quinto deck, sempre havia bastante movimentação nesses andares – no terceiro, havia um salão (Catacombs) onde se realizavam os “meet & greets”, e logo acima, ficavam o Cassino, o Boleros Lounge e o Schooner Bar enquanto o quinto abrigava o Royal Promenade, um corredor com lojas, um pub, um café, uma sorveteria, uma “cupcakeria” e um restaurante.

Como havia uma sala de conferências no segundo andar, a transição do Platinum Theatre para o Ice Rink exigia subir até o deck 4 para depois descer de volta ao 2, cruzando o cassino e suas máquinas de jackpot e mesas de blackjack. Do Ice Rink ao Shpynx, era necessário subir ao quinto e atravessar o sempre cheio Royal Promenade.

De todos esses para o Pool Deck, era necessário brigar para conseguir entrar nos disputados elevadores após os shows. Muitas vezes era mais fácil dar a longa volta no navio para subir pelo lado oposto onde se concentrava a maior parte das cabines (a minha, dessa vez, ficou no deck 9 basicamente na outra extremidade dos locais de shows), o que também significava uma bela caminhada de volta para o palco sobre as piscinas.

Mesmo assim, graças às boas arquibancadas do Ice Rink, ao mezanino do Platinum Theatre e aos degraus e andares superiores ao redor das piscinas centrais do Pool Deck, era possível acompanhar tranquilamente os shows menos empolgantes – e foram muitos – sem se cansar tanto. Apenas o Sphynx exigia uma batalha para se conseguir enxergar algo.

No mais, continuavam os mesmos hábitos do cruzeiro. Um café da manhã mais requintado, os almoços e jantares gourmets, todos com horários limitados no restaurante ao longo dos terceiro e quarto andares, enquanto o quinto andar abrigava a novamente tediosa venda de merchandising, com filas imensas à velocidade de tartarugas para conseguir se comprar qualquer merch das bandas.

A pizzaria e o café da Royal Promenade no quinto andar funcionavam madrugada adentro, enquanto o décimo-primeiro deck abrigava o Windjammer Cafe, com um buffet servindo variados tipos de comida ao longo do dia. A oferta de bebidas pouco mudou em relação ao Majesty of the Seas (os tradicionais purgantes americanos e algumas boas importadas), exceto pelo Hoof & Claw pub do quinto andar, onde se encontravam algumas cervejas artesanais por preços não muito mais salgados. No décimo segundo andar, o clássico Johnny Rockets, cobrando preço fixo para dispor de um assassino all-you-can-eat de variados hamburgueres.

A estadia em Ocho Rios ofereceu vários tipos de passeios, desde ir beijar golfinhos com o Cannibal Corpse a fazer bobsled, visitar “peroladas” praias particulares, bem como cachoeiras e cavernas, tudo a preços muito salgados (70 dólares no mínimo para corridas 3 ou 4 horas de atividade). Preferi relaxar um pouco ao gosto da razoável lager e ótimas piñas coladas locais em terra firme na medíocre praia do porto jamaicano, ao som de várias ofertas nem sempre amistosas de taxistas e drug-dealers.

Como infeliz ressalva, o check-in esse ano foi absurdamente lento. Eu demorei quase duas horas para conseguir embarcar, e isso porque cheguei relativamente cedo ao porto em Fort Lauderdale, quando a fila nem era tão imensa. Muita frescura na hora do raio X das malas evidenciou fiscais despreparados para lidar com aquele tipo de público, cheio de pingentes, instrumentos musicais etc.

Filas

As filas para o check-in no navio foram imensas, vagarosas e penosas sob sol intenso.

Outra nota ridícula foi a incapacidade da organização preparar o palco sobre as piscinas no prazo estipulado. O primeiro dia do cruzeiro foi dedicado à montagem, esperando-se que já estivesse pronto para o início do segundo dia, mas a demora apenas o liberou perto do seu final, obrigando seis das bandas programadas a tocar em horários e locais diferentes em outros dias.

Sem contar a péssima distribuição dos horários. Com quatro palcos, em vez de dividir as atrações duas-a-duas, a escalação seguia aquela agenda infernal com vários shows se cruzando por quinze ou vinte minutos, mantendo a eterna correria sem estabelecer qualquer padrão de sequência, começo e fim das apresentações.

Por fim, é necessário criticar o péssimo hábito do 70,000 Tons of Metal de demorar a anunciar suas atrações. Quase 2/3 dos grupos foram confirmados nos últimos dois meses antes de embarcar. Obviamente, causou a impressão de que vários estiveram lá apenas para completar as 60 bandas prometidas, o que comprometeu o nível das apresentações do cruzeiro.

Mas esse é um assunto para o próximo post.

monsters-of-rock-2015
Todo ano, eu chuto várias bandas que poderiam vir ao Brasil. Normalmente, erro a maior parte. Ano passado, até arrisquei um line-up pro Monsters. Claramente, os organizadores do festival leram meu blog:

Imagina um Monsters of Rock, no formato de 2013, com:
Dia metal: Baroness, Kylesa, Clutch, Mastodon, Machine Head e Lamb of God.
Dia hard:  Black Spiders, Rival Sons, Black Star Riders, Alter Bridge, Alice Cooper e Mötley Crue.

Duvido muito que quem bolou o line-up do Monsters desse ano tenha ouvido Rival Sons alguma vez na vida. Não combina com o resto do cast. Certeza que o cara leu aqui e disse, “vou por uma só pra aquele babaca ficar quieto”! Mais ou menos como fizeram os caras da Overload ao escalar Alcest no festival deles ano passado.

ISSO MUDOU. Em vez de ficar aqui chorando as bandas que mais quero ver no Brasil em 2015 (são basicamente as mesmas dos anos anteriores), vou cornetar esse line-up completa e fantasticamente fabuloso do Monsters of Rock. Aos tomates, cidadãos:

Dia 25/04:

Primal Fear: O pior é que isso ainda existe. Pra que trazer a banda cover se o original já está no cast?

Coal Chamber: Isso ainda existe também? Ah, é uma banda pra molecada calar a boca. Tipo, o Rival Sons.

Rival Sons: ACERTEI UM! Grandes merdas…

Black Veil Brides: QUEM? Preferia morrer a ter acertado ISSO.

lemmy

Lemmy, a prova viva de que o rock nunca envelhece

Motörhead: Mais uma chance de ver um velhote morrer no palco tentando cantar as mesmas músicas de sempre. Imperdível!

Judas Priest: Mas pra que gastar tanto dinheiro com medalhão inglês se já trouxe o genérico alemão? Claramente, não houve ENGENHARIA FINANCEIRA no festival.

Ozzy Osbourne: Mais uma chance de ver um velhote morrer no palco tentando cantar as mesmas músicas de sempre. Imperdível!

Dia 26/04:

Steel Panther: Pra que trazer o MANOWAR PALHAÇO se o Manowar e os palhaços já estão no cast?

Yngwie Malmsteen: Deve ter patrocínio do Greenpeace pra proteger essa baleia da extinção.

Unisonic: Kai Hansen e Michael Kiske, mas não é reunião do Helloween. Perda de tempo.

Accept: Num cast desses, algum quase-medalhão que vale a pena. Isso se não cancelar por a banda estar DEFINHANDO.

joeydemaio

E o Steel Panther acha que pode perto dele.

Manowar: ELES PROMETERAM VOLTAR NO MONSTERS! ELES CUMPRIRAM! SIGN OF THE HAMMER, BE MY GUIDE! OTHER BANDS PLAY, MANOWAR KILLS! Antológico!

Judas Priest: Vamos perder a chance de ouvir MAIS DISCURSOS DO JOEY DE MAIO por outro show do Judas? Por isso, o verdadeiro metal está morrendo.

Kiss: Vamos rir. São os palhaços que não precisaram pagar 700 pra entrar no circo. HAHA.

***

Como praticamente todos os HEADBANGERS DE BEM disseram, esse cast FENOMENAL do Monsters of Rock humilhou TODAS as edições PASSADAS PRESENTES E FUTURAS do Rock in Rio de qualquer universo.

Mas, Medina, não se desespere, ainda é possível dar a volta por cima, eu te ajudo. Aqui está o DIA DO METAL NO ROCK IN RIO, conforme minha sugestão pra destruir o Monsters of Rock sem deixar de ladoa ideia de REVIVAL DOS GRANDES MOMENTOS, celebrando os 30 GLORIOSOS anos da primeira INESQUECÍVEL edição. Anota aí:

Palco sunset:

tremendaometau

O tremendão ensinando Halford a ser metal.

ERASMO CARLOS & PEPEU GOMES: Para recriar o espírito do dia inaugural do festival em 1985, o TREMENDÃO vai aparecer vestido de Rob Halford e o Pepeu vai mais uma vez mostrar que DAVE MUSTAINE ERROU ao não contratá-lo.

ANGRA & ANDRE MATOS: Porque, como diria o Virna Lisi no saudoso Monsters de 95, “AQUI É BRASIL E VAMOS TOCAR SAMBA”. Por isso, HOLY LAND na íntegra. E sem SOTAQUE MACARRRRRRRÔNICO.

HELLOWEEN MEETS GEOFF TATE: O Unisonic pode ter o principal vocalista e compositor das músicas que definiram a banda, mas não tem o MESTRE ANDI DERIS, que canta para seus fãs surdos-mudos e vai DESCENDO NA BOQUINHA DA GARRAFA. E o Geoff Tate vai aparecer pra dançar junto, ao seu estilo cabaré, cantar JET CITY WOMAN, que vai virar ROCK CITY WOMAN, e ninguém jamais se esquecerá.

deristate

Andi Deris e Geoff Tate disputarão as MOÇAS do Rock in Rio

SEPULTURA com participação especial do LOBÃO: A união mais improvável desde 1991! Dá até pra enfiar uma escola de samba na brincadeira (nada de tambores franceses de bairro americano) e falar que OS METALEIROS ABRIRAM A CABEÇA.

Palco mundo:

MEGADETH: Tem POUCO show do Megadeth no Brasil em 2015 até agora. MANDA MAIS. E CHAMA O PEPEU!

SLIPKNOT: Enquanto o Monsters os desprezou esse ano por uns palhaços velhotes, o Medina traz OS LIXEIROS NIILISTAS que destroem tudo na base do batuque maluco e JUMPADAFUCKA!

IRON MAIDEN: Passou 2014 e o Iron Maiden não veio. NÃO PODEMOS FICAR DOIS ANOS SEM O IRON! É só não inventar, Medina.

METALLICA: PÁRA O MUNDO. Metallica e Iron Maiden. Na mesma noite! No mesmo palco! Na sequência! Aí é só chamar o Bruce Dickinson e o resto da galera no bis pra mandar uma STARS e nunca mais na história precisar existir um festival de metal no Brasil! ZEROU!

maidenallica

Iron Maiden e Metallica na mesma noite? Na sequência? Não vai ser só o Lars Ulrich que vai PEGAR FOGO.