Top 10 2015

Publicado: 31/12/2015 por Thiago Martins em Lixo inútil, Mesa de boteco
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10) Tribulation, Children of the Night: a banda sueca cada vez mais deixa de lado a agressividade da época do death metal, mas o passado extremo ainda influencia na aproximação com o rock setentista e o hard rock, tornando o disco bem sui generis na mistura do vocal sujo, melodias pegajosas em arranjos pesados e empolgantes.

9) Deafheaven, New Bermuda: Sunbather deu o que falar uns anos atrás com a tentativa dos americanos de fazer aquela mistura de black metal e shoegaze fugindo ao máximo de qualquer estereótipo de heavy metal. Em New Bermuda, não há essa preocupação e o disco soa mais orgânico e espontâneo, sem perder as inúmeras qualidades do antecessor, como agressividade extrema e melodias lindas.

8) Crypt Sermon, Out of the Garden: Num ano muito bom para o doom metal tradicional – Khemiss, Sorcerer e Magic Circle lançaram discos excelentes, o destaque ficou com a estreia dessa banda americana, e seu disco claramente a coloca em primeiro lugar na linha sucessória do trono do Candlemass. Nada muito inovador para essa linha do estilo, mas surpreende o alto nível pouco visto em tempos recentes. Devagar, melódico, pesado. E muito épico. Como tem que ser.

7) Swallow the Sun, Songs from the North Vol 1, 2 & 3: Para lançar um disco triplo precisa de bastante coragem, pois a chance de alguém dedicar quase três horas de atenção ao trabalho é mínima, mesmo para os pacientes fãs de doom e suas derivações. Mas os finlandeses se mostraram prontos para cumprir a missão e conseguiram lançar três discos num pacote coeso de altíssimo nível, variando da linha mais prog e triste para a podridão horripilante passando por uma linha mais melódica e quase folk sem velocidade alguma em uma jornada lindamente melancólica.

6) Clutch, Psych Warfare: O Clutch vai cada vez mais se caracterizando por não ser nem metal, nem hard rock, nem classic rock, mas tudo isso meio misturado numa atitude punk e um groove de quebrar os quadris da galera em arranjos sutis e nada convencionais. Intenso, pesado, cativante e pegajoso como são os shows da banda e como ela vem se especializando nos últimos álbuns, sempre com algumas surpresinhas ali e acolá para jogar seu queixo no chão quando menos se espera. O motivo de essa banda não ser headliner em estádios é uma incógnita que só justifica a falência da indústria musical.

5) Vhöl, Deeper than the Sky: John Cobbett é hoje facilmente o músico mais subvalorizado do metal americano. O corpo de trabalho da carreira do guitarrista com o Ludicra e o Hammers of Misfortune é de elevar ao saguão de maiores da história do metal. O segundo disco do Vhöl, seu supergrupo do underground metálico da costa leste dos EUA com Mike Scheidt do Yob e Aesop Dekker do Agalloch, além de sua esposa e parceira de Hammers of Misfortune Sigrid Sheie, apara as arestas nas quais o primeiro trabalho exagerou, mantendo o metal rápido quase thrash beirando o extremo com timbres sujos sem perder melodia, mas sem soar em momento algum previsível nem perder a espontaneidade das inspiradas composições.

4) Ghost, Meliora: Engraçado como esse disco foi subindo no meu conceito ao longo do tempo. Quando saiu, talvez nem entrasse num top 30. Aos poucos, mereceria uma menção honrosa, logo chegou ao top 10 e aqui termina num merecido top 5. Os suecos provaram que estão chegando à maturidade sem perdas em relação aos trabalhos anteriores. Os riffs poderosos e melodias cativantes da estreia já chamam a atenção logo de cara; as ideias nada convencionais do segundo vão aparecendo aos poucos, agora menos escancaradas. As letras soam mais inteligentes e, por isso, ainda mais satanicamente subversivas. Com Meliora, o Ghost chegou para ficar entre os grandes do heavy metal.

3) Enslaved, In Times: Quando o álbum foi lançado, para mim era claro que os noruegueses estariam entre os melhores do ano. O seu típico black metal mais contestador e celebratório da cultura viking do que satânico foi agregando elementos progressivos ao longo do tempo e, em In Times, chegou a um equilíbrio quase perfeito. Usa a agressividade extrema para temperar arranjos nada convencionais e melodias bonitas em composições muito bem estruturadas. O Enslaved cada vez mais se firma como uma espécie de Opeth do black metal e talvez chegue um dia a deixar de lado completamente o seu lado extremo. Ou não, pois nunca sabemos o que esperar deles e essa imprevisibilidade torna a banda tão cativante.

2) Baroness, Purple: Lançar um disco em dezembro é uma merda, pois raramente há tempo para absorver tudo que ele nos traz até fechar a lista de melhores do ano. Até pensei em deixar o Baroness de fora por causa disso, mas Purple é bom demais e seria uma extrema injustiça. Mais direto ao ponto e pesado que o fantástico Yellow & Green, sem perder as nuances ora progressivas, ora setentistas, ora alternativas, John Baizley tocou fundo nas feridas do grave acidente sofrido em 2012 para lançar um disco tenso, melancólico e cativante na medida certa para tirar a banda do underground sem perder credibilidade. Questão é saber se o péssimo estado atual do mainstream do heavy metal está pronto para lhes dar a merecida importância.

1) Royal Thunder, Crooked Doors: às primeiras ouvidas, Crooked Doors me decepcionou. Ter deixado de lado os elementos mais metálicos de CVI me deixou frustrado e, por isso, abandonei o disco por um tempo. Quando o revisitei alguns meses depois, já ciente de não ser um álbum de metal propriamente dito, foi difícil deixar de ouvi-lo, tamanha a força de suas melodias. Mlny Parsonz expõe seu coração em letras extremamente frágeis e tristes – o rompimento dela com o guitarrista da banda Josh Weaver dá o tom das músicas -, sem abusar de sua absurda potência vocal, usando-a sempre a favor da construção das belas e melancólicas atmosferas, modo pelo qual o parceiro mostrou também a sua frustração pelo acontecido, não tanto através de riffs, mas com licks aqui e ali, texturas ditando o clima nada ameno, sem deixar que o stress emocional exibido atrapalhe o prazer do ouvinte ao apreciar as composições. Por esse equilíbrio perfeito e cativante entre tensão e beleza, trauma e superação, ficou lado a lado com o Baroness na disputa de álbum do ano. Por mais que adore o jeito de cantar de Baizley, o diferencial é Parsonz, cujo vocal está num outro patamar.

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Menções honrosas:

Duas grandes bandas da história da música pesada lançaram discos esse ano. Book of Souls mostrou que o Iron Maiden não está nem aí para quem, como eu, gostaria de vê-los tentando fazer algo mais direto e mais uma vez abusou de suas influências progressivas num desnecessário álbum duplo desgastante, alternando poucos momentos de brilho a outros extremamente enfadonhos. Mas a excepcional recepção ao disco por todo o mundo do heavy metal foi acima de qualquer expectativa e, num estilo cada vez mais dividido e ramificado, foi gratificante ver todas as tendências se ajoelhando para essa clássica entidade.

E por isso é que a morte de Lemmy no apagar das luzes de 2015 é ainda mais triste. Ninguém na história da música pesada foi capaz de unir tantos mundos quanto o baixista e vocalista Motörhead. Não há fã de punk, hardcore, grindcore, metal tradicional, classic rock, thrash, death e black metal ou qualquer outro estilo derivado do rock’n’roll que não o tenha na lista de referências. Felizmente, um álbum vigoroso como Bad Magic finalizou a discografia no alto nível mantido desde Inferno, capaz de rivalizar com sua era clássica.

Ainda tenho minhas dificuldades em imaginar o que é pensar nas possibilidades de um ano novo sem a expectativa de um show do Motörhead no horizonte. Que 2016 nos ensine sem tantos traumas.

Eram seis e meia da manhã de um sábado, dia 26 de novembro de 1.998, quando o meu microsystem despertou, ao som da introdução de Battle Hymn, do Manowar. A dias de completar meus vinte anos de idade, já estava acordado havia certo tempo. Era a ansiedade pelo então Philips Monsters of Rock, que ocorreria mais tarde.

Tinha uma prova ou um trabalho para entregar na faculdade, não me lembro ao certo. Apenas que, do prédio da Gazeta, já fui direto ao Ibirapuera, onde cheguei pouco antes da abertura dos portões da pista de atletismo. Duas de minhas obsessões da adolescência tocariam naquela edição, o Savatage e o Dream Theater. Mas o dia, para mim, era de ver o Manowar.

Não que fosse um daqueles seguidores apaixonados pela banda. Mas, naquela época quando, recém retornado do interior paulista, tentava me encaixar de novo na cidade grande, o TRUE METAL parecia a única coisa estável na minha então corrida e esquisita vida. Ver Manowar e, especialmente, Battle Hymn, era o objetivo daquele festival. O resto era bônus. Simples assim.

Não foi daquela vez. Mesmo o Savatage tendo um feito um show acima da minha expectativa (e o Dream Theater, abaixo), o Saxon devastador como sempre e até Glenn Hughes sendo preciso nas preciosidades do Purple, a frustração por ter visto o Manowar fazer todas as palhaçadas possíveis no palco, mas dele sair sem tocar Battle Hymn deu o tom frustrante do que foi a edição de 1998 do Monsters para mim, não importou quão ótimos ou péssimos tenham sido Megadeth e Slayer na sequência.

De certa forma, tudo isso soa hoje como um passado muito distante. Não só a minha vida mudou demais, como o que me ainda mantém empolgado ao acompanhar os desdobramentos desse monstreguinho chamado heavy metal em 2015 está basicamente no outro extremo do estilo – acabei de ouvir o sensacional Four Phantoms do Bell Witch e o disco novo do Monolord estoura as caixinhas do meu desktop, conhece?

No entanto, quando foi anunciado o cast de 2015 da renascido Monsters of Rock, o segundo dia me soou muito mais atrativo. Na pior das hipóteses, álcool e galhofa garantiriam a diversão – Judas e Accept sempre valem o ingresso. Mas, no fundo, era uma nova chance àquele moleque de 19 anos e 361 dias de 1998. O decadente Manowar já me desapontara de forma comicamente homérica com a esculhambação de 2010, mas nunca perdi a sensação de ter contas a acertar com a banda e o domingo seria o dia.

Não acreditava, de verdade, que o Manowar tocaria Battle Hymn no Monsters of Rock de 2015. Afinal, a banda já costuma deixá-la de lado na maior parte dos raros shows, Eric Adams não tem mais a potência de outrora e o tempo de set do festival não permitiria todo o circo usual de Joey de Maio e ainda uma faixa longa, sempre cheia de pausas e embromações.

Foi num misto de surpresa e alívio quando, por volta das oito da noite do domingo, vi o Manowar iniciando aquela introdução que me despertava quase vinte anos atrás. Como se finalmente aquele show do Monsters of Rock de 1998 na pista de atletismo do Ibirapuera terminasse. E um ciclo da minha vida tivesse um encerramento menos melancólico.

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De certa forma, a própria edição de 2015 do Monsters of Rock foi um encerramento de um ciclo. Talvez mais do que isso, outra etapa na prorrogação da vida de dinossauros – no palco e fora dele. Pense em trazer todo o cast do festival para o mesmo 1998 referido acima. Pegue o setlist do Kiss, Judas Priest, Manowar, Ozzy Osbourne e Motörhead (em Curitiba mesmo), conte quantas músicas eles tocaram que já não poderiam estar no set há 17 anos. Não deve encher uma mão.

Se o Judas Priest, ainda esbanjando alguma vitalidade no palco, já acena diretamente com uma merecida aposentadoria, Lemmy e Ozzy vislumbram a morte cada vez mais próxima, enquanto Gene Simmons não tem papas na grande língua para assumir que substituirá a si mesmo e Paul Stanley para manter a máquina de dinheiro do Kiss funcionando sob as máscaras.

Entre os “dinossaurinhos” do cast, o Manowar é cada vez mais recluso em sua barulhenta insignificância com shows episódicos. O Unisonic é um novo spinoff do Helloween que agrega tão pouco quanto a carcassa do original há quase 30 anos. Malmsteen é uma piada velha de mau gosto. Só a formação atual do Accept parece ter algum futuro, com um vigor que talvez dure mais uns cinco anos.

Dos babyssauros nos dois dias do Monsters of Rock, o vocalista do Black Veil Brides teve um chilique e deixou o palco sob vaias. Rival Sons só empolgou as 200 pessoas já dispostas a prestar atenção neles de qualquer forma. Apenas o Steel Panther, que de novo só apresenta a piada, até por isso mesmo foi o único a conseguir arrancar uma resposta decente dos dinossauros do público.

Pois estes são os piores. Celebrando o Monsters of Rock como O MAIOR EVENTO DE METAL DO PLANETA, lotam dois dias de festival a preços salgados e não conseguem acompanhar nada que já não conhecessem há duas ou mais décadas. Rechaçam o Rock in Rio como “modinha” e pagam viagens caras para ver dinossauros pela enésima vez “antes do fim”, mal dando chance para bandas diferentes dos casts.

Gosto é gosto, cada um tem o seu, por mais errado que seja. E não sou eu quem vai dizer como cada um gasta seu dinheiro. Mas quem sabe um dia, quando estiverem putos com a mídia babando ovo para as atrações do enésimo Lollapalooza cheio de DJs e não ter mais nenhum headliner vivo para animar uma produtora a bancar uma edição de UM VERDADEIRO FESTIVAL DE HARD E METAL, percebam de quem foi a culpa.

Enquanto isso, deixa por Enter Sandman pra rolar aqui no Spotify…

Depois de postar as duas primeiras partes do meu relato sobre a edição de 2015 do 70,000 Tons of Metal (uma geral sobre como funcionou o Liberty of the Seas e o meu diário de bordo), vamos à parte final, com uma reflexão sobre os problemas desse cruzeiro num mercado em vias de saturação.

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70000-tons-of-metal

De “aventura em alto mar” para “festival ostentação” bem precário, 70,000 Tons of Metal está ficando para trás.

Houve um tempo em que o 70,000 Tons of Metal era inovador. Um cruzeiro unindo bandas e público, shows rolando o tempo todo em alto mar, não havia nada parecido, era uma experiência única. Uma verdadeira aventura para organizadores, músicos e fãs.

Esses dias acabaram. Hoje, há um mercado agitado de festivais de música em cruzeiros. A escalação de cada navio já é esperada como o cast dos tradicionais festivais europeus de verão. A experiência já foi profissionalizada, com público esperando cada vez mais o melhor custo/benefício, seja na relação de bandas, seja nas atrações em alto mar, seja nas paradas do meio da viagem.

O 70,000 Tons of Metal, por outro lado, não conseguiu acompanhar essa mudança. A Ultimate Metal Cruises (UMC), sua organizadora, tenta, é verdade. Ainda que tenha elevado o seu padrão com um navio maior e bem melhor (as más línguas dizem não ter tido outra saída pelo barco anterior ter sido “aposentado” dos mares da Flórida), a experiência proporcionada é cada vez mais decepcionante, em todos os quesitos possíveis.

Em 2015, a empolgação pelo navio novo se viu logo desapontada pela longa espera no anúncio do cast completo e a sensação de “encher linguiça” devido às bandas de apelo reduzido confirmadas em cima da hora. O check-in no porto em Fort Lauderdale foi penoso, numa vagarosa e imensa fila, nada organizada. O principal palco do festival não conseguiu ficar pronto em tempo e as alterações do running order demoraram a ser confirmadas, numa comunicação precária.

Não é só isso. Há algo na essência do 70,000 Tons of Metal que parece ultrapassado. Logo de cara, é preciso rever essa postura de 60 bandas tocando dois sets em quatro dias. Há razoável variação de estilos e, com apenas 3 mil pessoas se dividindo em dois ou três palcos simultâneos além das atrações normais de um cruzeiro (restaurantes, bares, piscinas, spa, minigolfe, aulas de surf etc.), os shows de atrações de porte médio menos festejadas ficam cada vez mais restritos a uma meia-dúzia de fanáticos e mais uns duzentos perdidos entrando e saindo o tempo todo.

Isso porque o 70,000 não definiu um público-alvo específico dentro do metal. Talvez por medo de não encher as cabines, algo que tem ocorrido cada vez mais em cima da hora (apesar disso poder ser posto em dúvida se os lugares se esgotaram mesmo quando este anúncio só é feito na véspera do embarque, quando não há mais tempo suficiente para a compra, como nas duas últimas edições), a UMC prefira atrair todo o tipo de fã.

Não tem funcionado bem. Por exemplo, o fã médio de power metal tende a rejeitar bandas mais extremas, e vice-versa. No entanto, na América do Norte, os grupos mais tradicionalistas europeus chamam mais a atenção pela raridade do que as de death metal, que normalmente excursionam bastante no “novo mundo”. O problema é que é mais barato à UMC contratar esses últimos, pois boa parte mora nos Estados Unidos – quando não na própria Flórida.

Ou seja, quem está mais disposto a gastar dinheiro para ir ao 70,000 Tons of Metal vê o evento sendo recheado de grupos que não lhe atraem. Não à toa, quando os mesmos organizadores tentaram fazer o Barge to Hell, com um cast mais dedicado ao metal extremo (e de altíssima qualidade), o cruzeiro foi um fiasco de público. Afinal, qual fã de death metal estava disposto a gastar uma alta grana para ver as mesmas bandas de sempre?

Isso vem causando um racha muito grande no público regular do evento, que era cativo até outrora e, pela reação no fórum oficial do 70,000 Tons e na sua página de Facebook, começa a pensar duas vezes antes de garantir sua cabine. A primeira leva de atrações, sempre com nomes de mais impacto, não garantem mais a qualidade final do cast, principalmente para quem não curte metal extremo.

Por essa perene falta de identidade do público com boa parte das atrações, em vez de atrair o fã de metal, o 70,000 Tons of Metal está se transformando cada vez mais em um evento para quem quer curtir o cruzeiro. Nada de errado, afinal, o navio é muito divertido por si só. Mas, por causa disso, há menos empolgação do público durante os shows e a consequente queda no nível da performance das bandas. De aventura exótica em alto mar, virou festival de luxo. E a UMC, infelizmente, falha em alcançar esse padrão.

(Foto: divulgação)

Como eu já antecipei, foram muitos shows medíocres em 2015. E eu vi muitos deles. Tenho teorias sobre isso, mas vou elaborá-las na parte final apenas. Agora, dedico esse post a um relato quase cronológico da exaustiva aventura de 2015 a bordo do Liberty of the Seas durante o 70,000 Tons of Metal.

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2) Diário de bordo

a) Quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Dia 01

O primeiro dia foi morno. O Trouble deu aula de doom; o Melechesh teve méritos no seu black metal estranho para público idem; Exumer tocou para quase ninguém e o Masacre trouxe a latinada suja para o teatro.

Dessa vez, cheguei na véspera do cruzeiro na cidade de Miami. Sem praias para mim na quarta-feira, pois fui ver o Torche, cujo show foi melhor que 99% das bandas vistas depois no cruzeiro. Assim, não pude sentir o clima do “mar de preto” da invasão dos banguers em Fort Lauderdale na véspera do embarque.

Saí na quinta de Miami em direção ao porto por volta de meio-dia, demorando uns 30min no trajeto de táxi. A chegada em Fort Lauderdale já foi tensa. Trânsito no porto e, sob um sol forte, uma fila grande, que só cresceria dali em diante graças a um check-in longo e pavorosamente lento.

Quase por volta das três da tarde, consegui embarcar e já tive a primeira ideia do tamanho do navio. Irritado com a demora e ensopado de suor, queria ir direto à cabine e tomar um banho ostentação. Quando cheguei ao deck 9, estava à altura da cabine 9253. A minha era a de número 9389. Isso significou ter de atravessar praticamente todo o monstrengo para chegar no quarto.

Hora do primeiro lanche no Windjammer Cafe, no décimo primeiro andar, onde era servido o buffet e pouco mais tarde rolaria o “ensaio geral” de segurança do navio, um momento moroso em que as pessoas são meticulosamente divididas para entender como proceder em caso de emergência, mas ninguém sabe se localizar ou presta atenção nos comissários, apenas fica procurando as “celebridades” próximas.

O primeiro show do cruzeiro coube ao Helstar (7,0) no Sphynx Lounge. Bem, não exatamente. Das últimas bandas a serem anunciadas, na verdade o show era quase um James Rivera solo, provavelmente um catadão de última hora para encher linguiça no navio. O vocalista mostrou seu gogó de praxe, clássicos do power metal texano foram bem executados, mas não pude ver nada, afinal, o cantor quase anão mal só se fazia notar pelo alcance intocado pelos anos.

Logo depois, caminhada rumo ao Platinum Theater para ver o show de reunião do God Dethroned (8,5), que mostrou seu black/death metal com perfeição e raça, num dos melhores sets de todo o cruzeiro. Por outro lado, o Pretty Maids (4,0) foi vergonhoso em sua apresentação Ice Rink. Os dinamarqueses pareciam sofrer de jet lag, num show já monótono para quem havia acabado de entrar no festival.

Pequena pausa para uma mini-refeição na pizzaria Torrentino’s do Royal Promenade antes de encarar o Annihilator (7,0) no Ice Rink. Os canadenses tinham o vocalista Coburn Pharr, do clássico Never, Neverland, como convidado para os shows do cruzeiro e tinha tudo para ser ultra-especial. Mas uma performance confusa acabou esfriando um pouco os ânimos, ainda mais quando a apresentação se encerrou de forma nada catártica com uma faixa mais obscura e desconhecida de King of the Kill.

Por outro lado, o Threshold (8,5) ganhou o prêmio de banda revelação do cruzeiro. Não que já não estivesse familiarizado com o prog-metal dos ingleses e esperasse a ótima execução de suas boas e complexas-sem-ser-chatas músicas, mas não sabia do carisma de seu vocalista Damian Wilson, fazendo-se notar no acanhado Sphynx mesmo para quem, como eu, não estava tão à frente da pista.

Deixei de lado o Kataklysm para ficar no Sphynx e tentar ver o Heathen (8,0), que tocavam quase ao mesmo horário. O veterano grupo da Bay Area fez uma boa apresentação, focada no seu mais recente e ótimo trabalho The Evolution of Chaos, cheio de canções longas e tortuosas, não menos pesadas, capitaneadas pelo excelente Lee Altus (também guitarrista do Exodus).

A opção posterior seria entre Apocaliptica e Korpklaani – mas não tinha uma Kaiser para tomar antes. Preferi então ir comer alguma coisa de novo na Royal Promenade e logo voltar o Sphynx para ver – na “grade” – o Trouble (9,0) fazer um dos melhores sets de todo o cruzeiro. Mandando seu tradicional doom, agora com o vocal do ótimo Kyle Thomas, a banda recheou seu set de clássicos de todas as fases. Surpreendeu-me quando encontrei o guitarrista Bruce Franklin no dia seguinte e ele me disse não ter gostado de sua exibição no dia e ter jogado um balde de água gelada em mim por não ter nada de diferente na manga guardada para a apresentação seguinte.

Um pouco zonzo do navio, mas nada comparado às tonturas psicodélicas do ano passado, fui tomar uns cafézinhos para me manter no pique no Torrentino’s e consegui pegar um pedacinho do Primal Fear finalizando seu set no Platinum Theater, mas logo me encaminhei para ver o ótimo Melechesh (8,0) tocar seu black metal todo cheio de influências esquisitas do oriente médio numa apresentação bem acima da média no Ice Rink.

Já eram três da manhã e eu havia me prometido não dormir cedo nessa edição do 70,000 Tons of Metal. Uma passada pelo Alestorm no Platinum Theatre fizeram a náusea que eu já sentia crescer e resolvi ir ao Ice Rink, sentar um pouco e esperar pelo thrash metal dos alemães do Exhumer (7,0), que recompensaram o meu esforço com muita disposição por parte deles, mesmo para um público reduzidíssimo, do qual os funcionários do navio em folga pareciam estar mais dispostos (e bêbados) que os headbangers de plantão na madrugada.

Pensa que acabou? Estava quase. Às quatro e meia da manhã, estava lá eu e basicamente toda a população de língua espanhola do cruzeiro de pé e fazendo festa para ver os colombianos do Masacre (7,5) botando todo mundo pra dançar com seu death metal old school, ingênuo e nojentamente delicioso, encerrando primeiro dia de cruzeiro por volta das 5 e meia da manhã, porque ver Dark Sermon ao amanhecer, ninguém merece.

b) Sexta-feira, 23 de janeiro de 2.015

Dia 02-01

O agitado segundo dia teve grandes shows comandados por Michael Schenker com seu Temple of Rock e o Venom de Cronos; o Refuge de Peavy Wagner não teve tantos méritos tocando velharias do Rage.

Após umas três horas e meia de sono, tinha que chegar cedo para tomar o café da manhã no restaurante, servido apenas até às 9:30 da madrugada, afinal, uma boa refeição matinal para aguentar o dia que prometia ser puxado, e começaria com o ótimo show do Tank (8,0) no Platinum Theater, desfilando seus clássicos da NWOBHM com toda pompa sob o surpreendente vocal de ZP Theart, antigo cantor do Dragonforce, sem se deixar levar pelos insuportáveis gritinhos característicos de sua ex-banda.

Em seguida, deveria ter rolado um show do Corrosion of Conformity no Pool Deck. Mas graças à incompetência da organização do 70,000 Tons of Metal, o palco da piscina não ficou pronto no prazo e, assim, abriu-se uma janela das 11:30 às 13:45, quando Peavey Wagner se reuniria com dois membros da clássica formação do Rage para tocar velharias da banda sob o nome de Refuge. Sem fome para justificar uma invasão ao almoço chique, o jeito foi tomar umas Pinãs Coladas para matar o tempo.

O Refuge (7,0) fez uma apresentação ok no Platinum Theater. Tocando direito as músicas velhas – longe da proficiência técnica da fase mais recente sob comando do excepcional Victor Smolski -, o show foi um desfile agradável de canções quase esquecidas na memória, mas sem qualquer brilho. Triste foi a notícia da separação do lineup atual do Rage e isso foi o que sobrou.

Mais um clarão se formou das 14:30 até o Cannibal Corpse entrar no Platinum Theater às 17:00. Tentei ir à tenda de merchandising, mas, como no passado, a fila estava impraticável – gigante, morosa, uns poucos coitados atendendo centenas de pessoas vagarosas nas suas escolhas. Restou dar uns chochilos na cabine para recuperar o sono insuficiente do dia anterior.

Logo mais, estava eu assistindo ao desfile de poesias líricas de George Corpsegrinder Fischer e o Cannibal Corpse (8,0) no Platinum Theater. Há certas coisas que não existem, como um show ruim desses veteranos do death metal. Divulgando um bom disco como A Skeletal Domain, é gol certo. Destaque para a ótima nova Kill Or Become, uma bela adição ao set.

Depois do Cannibal, já eram seis da tarde e nada do palco da piscina pronto. Foi quando, arrisquei passar na área de merchandising e a fila parecia humanamente encarável. Lá fui e, após “apenas” 40min, consegui comprar uma camisa do cruzeiro e uma bem mequetrefe do Trouble (até eu faria um silk melhor), apenas pra colaborar na vaquinha da erva dos velhotes.

Às 19:00, era hora de ver o Michael Schenker dar uma aula de rock’n’roll no Platinum Theater com seu Temple of Rock (9,0), comandado pelo ótimo e cada vez mais rechonchudo Doogie White nos vocais, e com a clássica cozinha do Scorpions (Francis Bucholz e Herman Rarebell). Hinos do UFO, do Scorpions e de seu MSG foram executados ao lado de umas poucas músicas novas, sem contar o absurdo e inestimável solo do guitarrista em Rock Bottom para encerrar a apresentação.

Dia 02-02

O segundo dia também teve sua cota de violência, como de praxe para o Napalm Death, o Cannibal Corpse e o Monstrosity. Já o Behemoth provou sua grande fase sob o luar.

Finalmente, com dez horas de atraso, o Soulfly inaugurava o Pool Deck apenas às 20:00 da sexta-feira, mas na mesma hora o Napalm Death (8,0) se apresentava no Ice Rink e nem deveria precisar dizer que os veteranos do grindcore fizeram por merecer a atenção lhes confiada, mesmo com a pista molhada do gelo no piso do local prejudicando a abertura de rodas mais intensas para acompanhar a violência do grupo inglês, sem Mitch Harris e com Danny Herrera estreando nas seis cordas.

Conferi um pouco do show do death sinfônico e melancólico do Wintersun (6,5) no Platinum Theater, que, apesar da execução perfeita, não era capaz de animar qualquer alma recém-saída do ataque do Napalm Death. Em seguida, foi a vez de Lee Garrison consolidar seu posto de embaixador da podreira no 70,000 Tons of Metal e, nesse ano, exibir o death metal sem frescuras do Monstrosity (7,5) no Ice Rink, com aquela boa e divertida violência, apesar da sentida ausência de seu ex-vomitador George Fischer, que poderia dar uma aparecida para relembrar velhos tempos.

No entanto, o encavalamento burro de horários me fez perder os primeiros minutos do sensacional show do Venom (9,5) no Pool Deck, pela primeira vez me aventurando por espaços abertos no cruzeiro. Apesar de já passar das dez da noite, a diferença para o ambiente de ar condicionado era desgastante, mas ainda assim Cronos fez o melhor show dele que já presenciei, mesmo tendo perdido a abertura com o hino Black Metal.

Deu tempo de conferir boa parte da guerra de travesseiros na pista do Ice Rink promovida pelo death metal “sui generis” do Origin (7,0) e ainda pegar um pedaço relevante do Blind Guardian (6,5) tocando mal e toscamente, como de praxe, os clássicos Bright Eyes e Majesty antes de subir de volta ao Pool Deck.

Afinal, já passava da meia-noite, as crianças já estavam na cama e o Behemoth (9,0) tinha carta branca (preta?) para promover extraordinariamente seu ritual satânico diretamente à lua, num set mais focado no último e sensacional disco The Satanist, ainda que o público já demonstrasse um certo cansaço e o calor não ajudasse muito.

Depois, para tirar o demônio do corpo, nada como um show de metal old school com a atual encarnação do Riot. Infelizmente, não funcionou. Essa mania de velhas bandas americanas descaracterizarem seu power metal sujo com vocalistas de tons altíssimos e insossos já prejudicou o Vicious Rumors e agora fez o mesmo com o Riot V (5,0), numa das apresentações mais sem graça de todo o cruzeiro.

Para vencer o sono, o jeito foi tomar um porre de café, mas sem saco de suportar a sauna a céu aberto do Pool Deck, arrumei uma boa poltrona para ver o 1349 (7,0) resgatar com muito ódio no coração o black metal old school norueguês numa apresentação boa o suficiente para não me fazer dormir confortavelmente nas cadeiras superiores do Platinum Theater.

O sono falava alto, eram quase quatro da manhã, e só mesmo os palhaços do Municipal Waste (8,0) para me manterem acordardo ao quase-amanhacer na estufa do Pool Deck. O retro-thrash dos americanos foi divertido, ora mandando a galera invadir a jacuzzi que ficava estrategicamente no meio da pista, ora entusiasmados pela chegada das 4:20 da madrugada e então eles poderiam celebrar o canábico “four-twenty”. Como fizeram, obviamente.

O show se encerrou pouco depois disso e até tentei encarar o Abandon Hope no Platinum Theatre, mas a menos que sua banda se chame Metallica, não faz o menor sentido usar um tema longo instrumental de introdução pré-gravado às quase cinco horas da manhã. Foi a senha para voltar à cabine e descansar um pouco antes de encarar os ares esfumaçados jamaicanos em algumas horas.

c) Sábado, 24 de janeiro

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Apreciar a vista do porto de Ocho Rios valia mais a pena do que ter se aventurado pela Jamaica.

Nem vi a hora exata quando o navio atracou em Ocho Rios, mas o despertador estava marcado para acordar em tempo de ir tomar café da manhã antes das nove e meia da manhã  e assim o fiz, mais uma vez me deliciando com Eggs Benedict e fazendo uma refeição boa o suficiente para aguentar um dia que prometia ser bem corrido.

Nenhum passeio me chamou a atenção. Resolvi encarar as ruas próximas ao porto de Ocho Rios, um passeio pela praia na região, uma visita a um boteco onde rolavam umas bizarras competições divertindo os metaleiros e de volta ao navio para um embuchar uns hambúrgueres no Johnny Rockets às quatro da tarde antes de encarar os primeiros shows do caminho de volta a Fort Lauderdale.

Dia03-02

Terceiro dia de correria com a brutalidade do Jungle Rot e do Enthroned em oposição ao surpreendente e agradável prog metal do Threshold.

E a primeira banda que (quase) vi foi o Jungle Rot (7,0), tocando seu death metal por volta das cinco da tarde no Sphynx. O lugar não muito empolgava tanto, mas os americanos fizeram por merecer um pouco de atenção num dia disputado além do normal, pois a organização enfiara os sets adiados do Pool Deck na sexta-feira no lugar de um desnecessário campeonato de hockey que ocuparia o Ice Rink no sábado.

Emendado ao Jungle Rot, foi correria para ver o Whiplash (6,5) tocar sem lá muito brilho ou inspiração seu thrash old school no Platinum Theater. Também sem tempo para descanso, era hora de ver uma das bandas canceladas da sexta, o Corrosion of Conformity (8,0). Bem, não exatamente o CoC, pois apenas Reed Mullin estava na banda, mas ainda assim relevante pela presença do clássico vocalista Karl Agell para celebrar o ótimo disco Blind, executado com eficiência praticamente na íntegra.

Hora, então, de conferir de novo os surpreendentes ingleses do Threshold (8,5), que de novo mandaram uma ótima apresentação, dessa vez no Platinum Theatre, visível para todos os olhos, num set totalmente diferentes de músicas, mas não de primor de execução e bom gosto.

Finalmente chegara a hora de ver o Amorphis (9,5), outro dos shows transferidos do Pool Deck no dia anterior para o Ice Rink, numa belíssima apresentação, focada na fase recente da banda, já após a entrada de Tomi Joutsen na banda. O vocalista desfilou todo seu cabelo e carisma junto ao público, que cantou junto e alto as músicas dessa última década de renascimento do grupo finlandês.

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As bandas deslocadas da piscina pela incompetência da organização do dia anterior: Amorphis brilhando, Karl Agell fazendo valer a pena o inapropriado uso do nome COC e Chris Boltendahl treinando as gargantas das pessoas.

Já passava das nove da noite e o Grave Digger (7,0) fazia o seu tradicional show mezzo power mezzo metal tradicional no Platinum Theater, estragado em várias partes pelo fraco guitarrista Axel Ritt, incapaz de dar peso aos riffs e trágico nos timbres e melodias dos solos, mesmo com Chris Boltendahl mantendo o público aceso e participativo.

Nada animado para ver o Wintersun, muito menos perder meu tempo com o In Extremo, sobrou um tempo para relaxar com uma razoável IPA chamada Redhook enquanto esperava o Behemoth (8,0) voltar ao palco do Platinum Theater para outro show destruidor, dessa vez mais focado no material mais antigo e violento, que infelizmente não me chama tanto a atenção, apesar de abrir incessantes rodas na pista.

Então era meia-noite e hora de conferir o Destruction (8,0) no Ice Rink, o último dos shows deslocados do Pool Deck na sexta-feira. E o grupo de Schmier fez o que sabe melhor, thrash cheio de blasfêmias e violência, botando os corpinhos para chacoalhar na pista durante quarenta e cinco intensos minutos.

Sem muito o que fazer, foi hora de tentar ver um pouco do folk metal épico (ahn?) do Ensiferum (6,0) e chegar à perene conclusão de o estilo não ser para mim, enquanto esperava por outro set avassalador do Napalm Death (8,5) no Pool Deck, dessa vez mais lotado de músicas do sensacional disco então ainda a ser lançado Easy Meat / Apex Predator, que funcionaram muito bem ao vivo.

Disposto a não deixar a noite acabar, conferi metade dos shows do razoável folk-metal do Equilibrium (7,0) no Platinum Theatre e o violento black metal belga do Enthroned (7,0) no Ice Rink. Queria ver o Gama Bomb, que começaria apenas às 05:15, mas eram 03:45 e o prog-metal dos noruegueses do Divided Multitude me deu mais sono ainda nos seus primeiros dez minutos. Tentei em vão visitar o karaokê. A verdade é que passava das quatro da madrugada e eu não me segurava em pé. Derrotado por bandas medíocres, fui dormir.

d) Domingo, 25 de janeiro

Dia 04-01

O último dia teve ótimo show do Heathen, enquanto o Anvil e o Primal Fear foram eficientes no Pool Deck.

O despertador estava lá, firme e forte, pronto para me acordar em direção ao café da manhã dos campeões gourmets. Achei que fosse desencanar pelo cansaço, mas o sangue paulistano falou mais alto e acabei indo ao restaurante mesmo assim, sem aquele banho ostentação matinal e com cara de extremamente acabado. Era o último dia, força.

Logo às dez da manhã, o Anvil (7,5) tocou no Pool Deck e eu juntei os cacos, amarrei na mão uma caneca daquele delicioso café americano que mais parece um chá preto de gosto estranho e fui encarar todo aquele maravilhoso sol sobre a minha cabeça para ver os palhaços eternos-losers canadenses numa apresentação animada até demais para quem via a cegueira se aproximando tamanha a claridade.

Hora então de ver um pedaço do Triosphere, mas foram necessários só alguns minutos do prog metal norueguês para desmaiar nas arquibancadas do Ice Rink sem sequer ideia do que acontecia no palco.

A melhor coisa a fazer, intui, era encarar o desgracento sol e conferir o power metal dos alemães do Primal Fear (7,5), surpreendentemente animado para um show ao meio-dia da madrugada. Ralph Scheepers errou o nome do brasileiro Aquiles Priester quando anunciou o baterista, mas, velho, ich verstehe dich.

Precisou chegar o Heathen (8,5) para iniciar o ritual do verdadeiro despertar, mesmo que a acolchoada cadeira do Platinum Theater me puxasse ao mundo de Morfeu numa incessante batalha pelos meus olhos. Tocando basicamente o mesmo set da primeira apresentação, apenas com a adição de Hypnotized antes do medley de Open the Grave e Death By Hanging no final, o grupo da Bay Area se mostrou mais animado num palco maior com mais público.

Fui ver um pouco do 1349 no Ice Rink, mas logo voltei ao quarto para tomar aquele banho para despertar de vez em tempo de voltar para ver o segundo set do Cannibal Corpse (8,5), sob um vento insalubre no Pool Deck, como se um ciclone ganhasse força a cada música tocada pelos veteranos do death metal, num set pouco, mas significativamente diferente, e um pouco melhor.

Fui tentar ver um pouco do final da jam de Jeff Waters no Platinum Theater, mas quando cheguei a zoeira toda já tinha terminado. Sem vontade de ver o Grave Digger de novo, muito menos jogar minhas escassas forças no lixo com o Trollfest, resolvi me posicionar na grade para o show seguinte, o mais esperado por mim no cruzeiro.

Dia 04-02

Três momentos inesquecíveis do no último dia: o vento insalubre durante o Cannibal Corpse, o magistral Thousand Lakes set do Amorphis e o eterno solo de Michael Schenker em Rock Bottom.

Pois era a hora de o Amorphis (10) tocar, na íntegra, o fabuloso Tales from the Thousand Lakes. E toda a espera valeu a pena, desde o começo com Into Hiding até as reverberações finais de Magic and Mayhem, pois a banda foi capaz de recriar perfeitamente toda a atmosfera sombria e melancólica do álbum no show, que ainda teve o cover do Abhorrence e a grandiosa My Kantele finalizando o melhor set de todo o cruzeiro.

Dali para frente, poderia ser só figuração, mas o templo roqueiro de Michael Schenker (9,5) não deixou por menos e, num set ligeiramente diferente e melhor em relação ao apresentado dois dias antes, agora num Pool Deck com mais músicos de outras bandas do que de público pagante do cruzeiro. Quando mais uma vez o guitarrista executou o precioso solo de Rock Bottom, estava explicado o motivo.

Havia um certo respiro depois do show do gênio alemão das seis cordas, então resolvi pela única vez fazer uma refeição no restaurante. Era hora do jantar e mandei uma carne deliciosa que foi responsável por agregar um pouco mais de forças para a reta final, iniciado ao ver quase na íntegra o não muito inspirado set do Soulfly (7,0) no Platinum Theatre, ainda que Marc Rizzo excepcional na guitarra e o carisma de Max Cavalera segurem facilmente o show.

Então, o momento mais difícil para mim. Na mesma hora, tocariam o Trouble e o Annihilator. Nas minhas andanças de festival, encontrara Bruce Franklin e Coburn Pharr. O primeiro me dissera não terem ensaiado nenhuma música além do repertório da sexta-feira. O ex-vocalista canadense dizia que cantaria faixas diferentes de Never, Neverland. Com dor no coração, fui ver a trupe de Jeff Waters.

E fiquei com raiva. Porque atrasou quase quarenta minutos para começar o set dos canadenses – com direito a chilique no palco de Jeff Waters com a falta de suporte da organização -, tempo suficiente para ter visto o show inteiro do Trouble e voltar na parte que me interessava do Annihilator (8,5), cuja apresentação foi bem superior à primeira, com um setlist diferente e mais equilibrado para manter o público animado.

Com o atraso do Annihilator, acabei perdendo boa parte do set do Venom (7,5) no Platinum Theater. Dessa vez, o clássico grupo executou na íntegra o seu disco novo. Por melhor que From the Very Dephts seja, não garante sozinho um show de alto nível. Mesmo com algumas preciosidades como 1000 Days in Sodom no bis, um clima mais cabisbaixo de fim de festa predominou.

Disposto a me segurar acordado, fui conferir o Blind Guardian (7,0) encerrando as atividades do Pool Deck. E até que foi divertido. Ciente da ruindade ao vivo da banda (timbres péssimos, carisma zero, vocal fraquíssimo e incapacidade de reproduzir os complexos arranjos de estúdio), esperava apenas ouvir as músicas velhas e fui correspondido com uma overdose dos anos 90 para relembrar a minha adolescência ao lado de uma pista repleta de brasileiros cantando tudo a plenos pulmões.

Dia 04-03

A maratona final teve o Coburn Pharr se juntando a Jeff Waters no atrasado show do Annihilator; Max Cavalera e Cronos liderando Soulfly e Venom em sets nada memoráveis; muita gente gritando para não ouvir a tradicional fraca performance do Blind Guardian e o Destruction encerrando as atividades.

Desci para acompanhar no Platinum Theater o set do Destruction (7,5), que deveria por um ponto final na aventura de 2015 do 70,000 Tons of Metal. Mas, mesmo com todo o esforço de Schmier para manter a violência correndo solta, parecia repescagem de balada, com a pista cheia de bêbados fantasiados completamente sem noção.

No entanto, o último show coube ao Alestorm, originalmente programado para o Pool Deck pela manhã, mas por motivo de saúde (ressaca das bravas?), acabou adiando o show para as duas da madrugada no Ice Rink. Sequer tive interesse em ver, mas, quando conversava com jornalistas gringos, músicos e, principalmente, a galera da equipe técnica (que sempre conta as histórias mais engraçadas) entre o cassino e o karaokê, vi um cidadão sendo carregado pelo público escada abaixo – depois me contaram ter sido o senhor responsável pelos vocais dessa banda.

Era aproximadamente umas quatro da madrugada a hora em que joguei a toalha e voltei para a cabine, rumo ao meu último sono antes de atracar em Fort Laurderdale e ter um longo dia sem seu tosco aeroporto, repleto de celebridades em estado semi-vegetativo.

E também com a certeza de que não voltaria ao 70,000 Tons of Metal de novo. Mas esse é assunto para o próximo post.

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A visão da área superior do Liberty of the Seas, com o Pool Deck finalmente pronto

Ano passado, fui ao 70,000 Tons of Metal e não posso dizer que foi uma das melhores experiências “metálicas” da minha vida. Longe, muito longe, de ser ruim, mas, pela relação custo-benefício, esperava muito mais do primeiro cruzeiro especializado em heavy metal e não me empolgava muito com a ideia de voltar.

Graças a uma conjuntura favorável, retornei em 2015. Havia uma expectativa diferente, pois o cruzeiro ocorreu num navio maior e com mais atrações. Em vez das 40 bandas dos anos anteriores, 60 embarcaram ao lado de agora 3 mil headbangers (50% a mais do que em 2014) no Liberty of the Seas em Fort Lauderdale, rumo a Ocho Rios na Jamaica.

Tentei ter uma experiência diferente. Enquanto em 2014, por não aguentar direito a viagem de navio, acabei ficando muito mais na boa, em 2015, fui ao sacrifício. Ao todo, dormi menos de 12 horas nas quatro noites a bordo do Liberty of the Seas, encarei shows madrugada a dentro como se não houvesse dia seguinte. E não sei se valeu tanto a pena. Mas chegaremos a isso.

Vou dividir esse relato em partes. A primeira, acompanhando este post, explica como foi a estrutura do 70,000 Tons of Metal no Liberty of the Seas. Depois, faço um relato do meu dia-a-dia-show-a-show nos quatro dias e termino com uma reflexão sobre a experiência toda e esse cruzeiro especificamente.

***

1) Evolução monstruosa de estrutura, mas persiste o baixo profissionalismo na organização

A estrutura do navio onde se deu a última edição do 70,000 Tons of Metal é bem maior que a do Majesty of the Seas. Há mais espaço nos andares, bem como existem mais e melhores opções de comida, bebida e diversão alheias aos shows, como mini-golfe e simulação de praias para a prática de surf.

Os shows em 2015 se dividiram em quatro palcos:

a) Sphynx Lounge: localizada num extremo do quinto andar (ou deck, no jargão “navilístico”),  é um mini-clube de baladas dentro do navio. Ou seja, acaba emulando um show numa casa apertadinha, palco baixo, visibilidade ruim, pista bem pequena com várias mesas ao redor dela, de onde era impossível ver qualquer coisa em frente à pista. Mas, diferente de 2014, o som tinha ótima qualidade. Quando acabavam as bandas no princípio da madrugada, abrigava o famoso e maluco karaokê do 70,000 Tons of Metal;

b) Ice Rink: é um ringue de patinação no gelo ao centro do segundo e terceiro decks do cruzeiro. Transformada num ótimo lugar para ver shows com boa qualidade de som, com pequenas arquibancadas andar ao redor da pista ótimas com excepcional visibilidade do palco e pista ampla. O problema é que, como o piso fora descongelado para o cruzeiro, o chão estava sempre molhado, algo incômodo para o equilíbrio de quem assistia aos shows.

c) Platinum Theater: o teatro situado no canto dos segundo, terceiro e quarto decks do cruzeiro. Dessa vez, a pista era mais curta, as cadeiras ao nível térreo começavam sem dar tanto espaço a quem estava de pé, e havia a possibilidade de se acompanhar os shows dos mezaninos. Também tinha boa qualidade de som.

d) Pool Deck: o mais problemático palco do festival, ao centro do 11º andar, sobre as piscinas principais do navio. Deveria ter sido aberto logo ao início do segundo dia de shows, mas a lentidão da organização demorou para deixá-lo pronto, causando alterações nos horários dos dias seguintes. Como também há diferentes jacuzzis espalhadas na cobertura do navio, a pista comportou vários degraus, mezaninos e uma banheira bem em sua parte central, o que atrapalhou a possibilidade de se curtir o show com mais empolgação logo à frente do palco, mesmo com ótima qualidade de som.

O trânsito entre os palcos não era dos mais fáceis. Com três deles localizados entre o segundo e quinto deck, sempre havia bastante movimentação nesses andares – no terceiro, havia um salão (Catacombs) onde se realizavam os “meet & greets”, e logo acima, ficavam o Cassino, o Boleros Lounge e o Schooner Bar enquanto o quinto abrigava o Royal Promenade, um corredor com lojas, um pub, um café, uma sorveteria, uma “cupcakeria” e um restaurante.

Como havia uma sala de conferências no segundo andar, a transição do Platinum Theatre para o Ice Rink exigia subir até o deck 4 para depois descer de volta ao 2, cruzando o cassino e suas máquinas de jackpot e mesas de blackjack. Do Ice Rink ao Shpynx, era necessário subir ao quinto e atravessar o sempre cheio Royal Promenade.

De todos esses para o Pool Deck, era necessário brigar para conseguir entrar nos disputados elevadores após os shows. Muitas vezes era mais fácil dar a longa volta no navio para subir pelo lado oposto onde se concentrava a maior parte das cabines (a minha, dessa vez, ficou no deck 9 basicamente na outra extremidade dos locais de shows), o que também significava uma bela caminhada de volta para o palco sobre as piscinas.

Mesmo assim, graças às boas arquibancadas do Ice Rink, ao mezanino do Platinum Theatre e aos degraus e andares superiores ao redor das piscinas centrais do Pool Deck, era possível acompanhar tranquilamente os shows menos empolgantes – e foram muitos – sem se cansar tanto. Apenas o Sphynx exigia uma batalha para se conseguir enxergar algo.

No mais, continuavam os mesmos hábitos do cruzeiro. Um café da manhã mais requintado, os almoços e jantares gourmets, todos com horários limitados no restaurante ao longo dos terceiro e quarto andares, enquanto o quinto andar abrigava a novamente tediosa venda de merchandising, com filas imensas à velocidade de tartarugas para conseguir se comprar qualquer merch das bandas.

A pizzaria e o café da Royal Promenade no quinto andar funcionavam madrugada adentro, enquanto o décimo-primeiro deck abrigava o Windjammer Cafe, com um buffet servindo variados tipos de comida ao longo do dia. A oferta de bebidas pouco mudou em relação ao Majesty of the Seas (os tradicionais purgantes americanos e algumas boas importadas), exceto pelo Hoof & Claw pub do quinto andar, onde se encontravam algumas cervejas artesanais por preços não muito mais salgados. No décimo segundo andar, o clássico Johnny Rockets, cobrando preço fixo para dispor de um assassino all-you-can-eat de variados hamburgueres.

A estadia em Ocho Rios ofereceu vários tipos de passeios, desde ir beijar golfinhos com o Cannibal Corpse a fazer bobsled, visitar “peroladas” praias particulares, bem como cachoeiras e cavernas, tudo a preços muito salgados (70 dólares no mínimo para corridas 3 ou 4 horas de atividade). Preferi relaxar um pouco ao gosto da razoável lager e ótimas piñas coladas locais em terra firme na medíocre praia do porto jamaicano, ao som de várias ofertas nem sempre amistosas de taxistas e drug-dealers.

Como infeliz ressalva, o check-in esse ano foi absurdamente lento. Eu demorei quase duas horas para conseguir embarcar, e isso porque cheguei relativamente cedo ao porto em Fort Lauderdale, quando a fila nem era tão imensa. Muita frescura na hora do raio X das malas evidenciou fiscais despreparados para lidar com aquele tipo de público, cheio de pingentes, instrumentos musicais etc.

Filas

As filas para o check-in no navio foram imensas, vagarosas e penosas sob sol intenso.

Outra nota ridícula foi a incapacidade da organização preparar o palco sobre as piscinas no prazo estipulado. O primeiro dia do cruzeiro foi dedicado à montagem, esperando-se que já estivesse pronto para o início do segundo dia, mas a demora apenas o liberou perto do seu final, obrigando seis das bandas programadas a tocar em horários e locais diferentes em outros dias.

Sem contar a péssima distribuição dos horários. Com quatro palcos, em vez de dividir as atrações duas-a-duas, a escalação seguia aquela agenda infernal com vários shows se cruzando por quinze ou vinte minutos, mantendo a eterna correria sem estabelecer qualquer padrão de sequência, começo e fim das apresentações.

Por fim, é necessário criticar o péssimo hábito do 70,000 Tons of Metal de demorar a anunciar suas atrações. Quase 2/3 dos grupos foram confirmados nos últimos dois meses antes de embarcar. Obviamente, causou a impressão de que vários estiveram lá apenas para completar as 60 bandas prometidas, o que comprometeu o nível das apresentações do cruzeiro.

Mas esse é um assunto para o próximo post.

monsters-of-rock-2015
Todo ano, eu chuto várias bandas que poderiam vir ao Brasil. Normalmente, erro a maior parte. Ano passado, até arrisquei um line-up pro Monsters. Claramente, os organizadores do festival leram meu blog:

Imagina um Monsters of Rock, no formato de 2013, com:
Dia metal: Baroness, Kylesa, Clutch, Mastodon, Machine Head e Lamb of God.
Dia hard:  Black Spiders, Rival Sons, Black Star Riders, Alter Bridge, Alice Cooper e Mötley Crue.

Duvido muito que quem bolou o line-up do Monsters desse ano tenha ouvido Rival Sons alguma vez na vida. Não combina com o resto do cast. Certeza que o cara leu aqui e disse, “vou por uma só pra aquele babaca ficar quieto”! Mais ou menos como fizeram os caras da Overload ao escalar Alcest no festival deles ano passado.

ISSO MUDOU. Em vez de ficar aqui chorando as bandas que mais quero ver no Brasil em 2015 (são basicamente as mesmas dos anos anteriores), vou cornetar esse line-up completa e fantasticamente fabuloso do Monsters of Rock. Aos tomates, cidadãos:

Dia 25/04:

Primal Fear: O pior é que isso ainda existe. Pra que trazer a banda cover se o original já está no cast?

Coal Chamber: Isso ainda existe também? Ah, é uma banda pra molecada calar a boca. Tipo, o Rival Sons.

Rival Sons: ACERTEI UM! Grandes merdas…

Black Veil Brides: QUEM? Preferia morrer a ter acertado ISSO.

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Lemmy, a prova viva de que o rock nunca envelhece

Motörhead: Mais uma chance de ver um velhote morrer no palco tentando cantar as mesmas músicas de sempre. Imperdível!

Judas Priest: Mas pra que gastar tanto dinheiro com medalhão inglês se já trouxe o genérico alemão? Claramente, não houve ENGENHARIA FINANCEIRA no festival.

Ozzy Osbourne: Mais uma chance de ver um velhote morrer no palco tentando cantar as mesmas músicas de sempre. Imperdível!

Dia 26/04:

Steel Panther: Pra que trazer o MANOWAR PALHAÇO se o Manowar e os palhaços já estão no cast?

Yngwie Malmsteen: Deve ter patrocínio do Greenpeace pra proteger essa baleia da extinção.

Unisonic: Kai Hansen e Michael Kiske, mas não é reunião do Helloween. Perda de tempo.

Accept: Num cast desses, algum quase-medalhão que vale a pena. Isso se não cancelar por a banda estar DEFINHANDO.

joeydemaio

E o Steel Panther acha que pode perto dele.

Manowar: ELES PROMETERAM VOLTAR NO MONSTERS! ELES CUMPRIRAM! SIGN OF THE HAMMER, BE MY GUIDE! OTHER BANDS PLAY, MANOWAR KILLS! Antológico!

Judas Priest: Vamos perder a chance de ouvir MAIS DISCURSOS DO JOEY DE MAIO por outro show do Judas? Por isso, o verdadeiro metal está morrendo.

Kiss: Vamos rir. São os palhaços que não precisaram pagar 700 pra entrar no circo. HAHA.

***

Como praticamente todos os HEADBANGERS DE BEM disseram, esse cast FENOMENAL do Monsters of Rock humilhou TODAS as edições PASSADAS PRESENTES E FUTURAS do Rock in Rio de qualquer universo.

Mas, Medina, não se desespere, ainda é possível dar a volta por cima, eu te ajudo. Aqui está o DIA DO METAL NO ROCK IN RIO, conforme minha sugestão pra destruir o Monsters of Rock sem deixar de ladoa ideia de REVIVAL DOS GRANDES MOMENTOS, celebrando os 30 GLORIOSOS anos da primeira INESQUECÍVEL edição. Anota aí:

Palco sunset:

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O tremendão ensinando Halford a ser metal.

ERASMO CARLOS & PEPEU GOMES: Para recriar o espírito do dia inaugural do festival em 1985, o TREMENDÃO vai aparecer vestido de Rob Halford e o Pepeu vai mais uma vez mostrar que DAVE MUSTAINE ERROU ao não contratá-lo.

ANGRA & ANDRE MATOS: Porque, como diria o Virna Lisi no saudoso Monsters de 95, “AQUI É BRASIL E VAMOS TOCAR SAMBA”. Por isso, HOLY LAND na íntegra. E sem SOTAQUE MACARRRRRRRÔNICO.

HELLOWEEN MEETS GEOFF TATE: O Unisonic pode ter o principal vocalista e compositor das músicas que definiram a banda, mas não tem o MESTRE ANDI DERIS, que canta para seus fãs surdos-mudos e vai DESCENDO NA BOQUINHA DA GARRAFA. E o Geoff Tate vai aparecer pra dançar junto, ao seu estilo cabaré, cantar JET CITY WOMAN, que vai virar ROCK CITY WOMAN, e ninguém jamais se esquecerá.

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Andi Deris e Geoff Tate disputarão as MOÇAS do Rock in Rio

SEPULTURA com participação especial do LOBÃO: A união mais improvável desde 1991! Dá até pra enfiar uma escola de samba na brincadeira (nada de tambores franceses de bairro americano) e falar que OS METALEIROS ABRIRAM A CABEÇA.

Palco mundo:

MEGADETH: Tem POUCO show do Megadeth no Brasil em 2015 até agora. MANDA MAIS. E CHAMA O PEPEU!

SLIPKNOT: Enquanto o Monsters os desprezou esse ano por uns palhaços velhotes, o Medina traz OS LIXEIROS NIILISTAS que destroem tudo na base do batuque maluco e JUMPADAFUCKA!

IRON MAIDEN: Passou 2014 e o Iron Maiden não veio. NÃO PODEMOS FICAR DOIS ANOS SEM O IRON! É só não inventar, Medina.

METALLICA: PÁRA O MUNDO. Metallica e Iron Maiden. Na mesma noite! No mesmo palco! Na sequência! Aí é só chamar o Bruce Dickinson e o resto da galera no bis pra mandar uma STARS e nunca mais na história precisar existir um festival de metal no Brasil! ZEROU!

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Iron Maiden e Metallica na mesma noite? Na sequência? Não vai ser só o Lars Ulrich que vai PEGAR FOGO.

Sem maiores embromações, porque o ano já acabou e a lista já está atrasada.

10. Dawnbringer – Night of the Hammer

Confesso nunca ter ficado lá muito empolgado com o tipo de metal tradicional quadradão feito pelo Dawnbringer. Não era ruim, mas nada que justificasse aos meus ouvidos tanto prestígio quanto o possuído por Chris Black, o toca-tudo-menos-guitarras dessa banda e mais umas outras duzentas. O último disco, no entanto, me pegou de jeito. Começando com um andamento mais lento e aos poucos soltando a velocidade em meio a várias nuances, Night of the Hammer é aquele álbum para o fã de metal da velha escola se deliciar, cheio de refrãos marcantes e riffs fortes, recomendadíssimo para quem curte aquela linha épica mais mística à la Manilla Road.

09. Judas Priest – Redeemer of Souls

Quem não era cético quanto à continuação da carreira do Judas Priest sem KK Downing? Ritchie Faulkner vai ter meu eterno respeito por ter dado um belo chute na bunda do Glenn Tipton e lançado o que é o melhor disco da banda desde Painkiller, mas não só isso: conseguiu recapturar boa parte de sua linha setentista em composições de alto nível, com várias faixas que já me deixam de água na boca para conferir ao vivo, coisa não acontecida com nenhum trabalho desde 1990. Claro, não é um novo clássico, pois infelizmente a qualidade não se mantém ao longo de todo o disco e há algumas coisas dispensáveis, mas, se não houvesse, a posição de Redeemer of Souls neste top 10 seria #1.

08. Behemoth – The Satanist

Outra banda que jamais me convencera 100%. Sempre curti Behemoth, mas nunca tinha conseguido ouvir um disco deles e ter ficado tão satisfeito quanto The Satanist conseguiu. Sim, Nergal tentou dar uma chacoalhada e diversificada no seu black metal com pitadas de death metal para torná-lo um pouco menos freneticamente exagerado, sem por isso deixá-lo menos intrincado, mas com um resultado final muito mais épico e marcante, não perdendo em heresia ou fúria nos arranjos, letras e vocais, como se exige de quem se dispõe a travar uma batalha anti-religiosa.

07. Primordial – Where Greater Men Have Fallen

Conseguir ser um Bathory irlandês talvez seja a melhor e pior descrição do Primordial. Mergulhando na história de seu país e criando melodias e atmosferas musicais perfeitas para embalá-la, o grupo do carismático frontman Allan Averill lançou o melhor trabalho de sua carreira sem precisar refazer a roda, mas com a ambição dos arranjos se ajustando à grandiosidade das músicas, misturando influências de post-black metal ao que de mais épico o metal já produziu em faixas densas, tensas e catárticas. Tudo que o Primordial sempre fez, mas aqui num nível acima de beleza e inspiração.

06. Alcest – Shelter

Um dia Neige deixaria de fazer metal com o Alcest, era óbvio. Mas, assim como acontece com o Anathema (que falhou no decepcionante Distant Satellites), há uma intensidade dentro das composições do francês que não o afasta do estilo, mesmo se um álbum como Shelter seja mais dreampop e shoegaze, portanto mais próximo do público indie, sem possuir nada de agressividade, trabalhando mais na beleza dos arranjos sem a contraposição da feiura do metal extremo. A ausência do contraste tão bem trabalhado em todos os discos anteriores não fez nenhuma falta.

05. Witch Mountain – Mobile of Angels

A péssima notícia para o Witch Mountain em 2014 foi que a sensacional vocalista Uta Plotkin resolveu abandonar a banda logo após lançar esse disco, pois ela alcançou níveis ANNEKE de divindade vocal em alguns momentos dessa pérola, um disco de doom com influência latente de blues e rock setentista, de faixas densas e belas comandados por riffs mamutes e solos precisos, sutis e tensos na medida certa. Mas é Uta quem eleva tudo isso a um outro patamar, com uma exibição daquelas de deixar os pelos arrepiados, inesquecíveis. E fica a bomba para a banda arranjar alguém do mesmo calibre.

04. Eyehategod – Eyehategod

Foram mais de dez anos de espera por um disco novo do Eyehategod. E ele valeu cada mísero dia de furacão e todo tipo de problemas pessoais nos quais os membros da banda se envolveram. O trabalho autointitulado não traz nada de muito diferente a quem já era fã da banda – mas talvez nunca numa qualidade de gravação e execução antes proporcionada aos genitores dessa mistura de blues, doom e hardcore, conhecida como sludge. Músicas que tratam de desespero, angústia, sofrimento nas letras e em cada arranjo sujo e devastador. E se o disco foi o último trabalho antes da morte do baterista Joey LaCaze – pra não faltar nada na lista de transtornos no intervalo, que já envolvia prisão e gente sem teto – o resultado é só mais uma prova que a inspiração artística surgida das péssimas experiências é sempre a melhor.

03. Triptykon – Eparistera Daimones

Engraçado que foi decepcionante a primeira audição do segundo disco do projeto pós-Celtic Frost do gênio Tom Fischer. Demorou um pouco para o miolo do álbum, com influências muito góticas, fazer sentido na minha cabeça. Porque o início e o final não apresentaram nada de muito novo à fórmula do primeiro e celebrado trabalho, talvez um ganho de qualidade aqui e uma inspiração menor acolá. No final, quando Eparistera Daimones se encaixou como o trabalho coerente que é, foi só correr para o abraço. No entanto, esperava ainda mais inventividade desse trabalho, culpa da genialidade de seu mentor. Mas chamar de decepção seria uma heresia.

02. Pallbearer – Foundations of Burden

Não tem nada nesse segundo trabalho que não soe superior ao já clássico Sorrow and Extinction, a estreia fulminante desse grupo americano de doom. Não há nada que surpreenda, também. Foundations of Burden é um aperfeiçoamento da fórmula épica de doom melancólico por eles consagrada, com mais melodias vocais, arranjos de guitarra mais densos e soberbos, alternância de ritmos, atmosferas e sentimentos. Um gigante amadurecimento para uma banda ainda dando seus primeiros passos, mas já merecedora de figurar no alto panteão do heavy metal. Que a ascensão siga no futuro, há muito ainda por vir.

01. Yob – Clearing the Path to Ascend

Após ouvir o disco novo do Pallbearer, achava difícil que algum disco roubasse deles o título de álbum do ano. Mas o Yob fez sua obra-prima e conseguiu. O doom arrastado e catártico do grupo americano sempre foi de digestão tão intrincada quanto seus arranjos, mas em Clearing the Path to Ascend ele conseguiu uma fluidez que apenas aparecia em momentos de trabalhos anteriores. São apenas quatro longas faixas, cada uma em seu mundo, distantes entre si, mas perfeitamente sincronizados. De peso colossal à delicadeza cortante em sucessões hipnóticas, nenhum outro trabalho foi tão perfeito em 2014 quanto este álbum.

Segue a playlist do ano no spotify: